Novas revelações da Polícia Federal ligam o presidente Lula a Daniel Vorcaro, ex-banqueiro sob investigação, através de seu ex-advogado Walfrido Warde. Mensagens indicam articulações para aproximar Vorcaro do presidente e mencionam a oferta de um uísque. O Planalto nega conhecimento e envolvimento direto de Lula nas tratativas.
As conexões do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com personagens envolvidos em investigações dos casos do INSS e do Banco Master se tornaram um ponto de atenção na reta final da campanha eleitoral.
Um novo capítulo dessa trama envolve o ex-advogado de Daniel Vorcaro, Walfrido Warde. Mensagens e um áudio de Warde, divulgados pela Polícia Federal, sugerem articulações para aproximar o ex-banqueiro de Lula, chegando a mencionar uma suposta oferta de uma garrafa de uísque ao presidente.
Essas informações, baseadas em mensagens obtidas pela PF, foram apresentadas ao ministro André Mendonça pelo candidato Flávio Bolsonaro, que solicitou a abertura de uma investigação contra Lula por suspeitas de corrupção passiva e advocacia administrativa. Conforme informações divulgadas, o Planalto nega que Lula tenha recebido o presente ou tido conhecimento da articulação relatada por Warde.
Lula em ‘mau momento’ eleitoral, segundo analistas
O episódio adiciona pressão à campanha presidencial, em um cenário já complexo com investigações envolvendo o filho do presidente, Fábio Luís Lula da Silva (Lulinha), e a empresária Roberta Luchsinger, além de aliados políticos.
O filósofo Luiz Felipe Pondé avalia que, apesar da experiência de Lula em contornar crises, a sucessão de denúncias o coloca em uma posição delicada. “Eu acho que isso [as denúncias e o entorno voltando] pode piorar a situação dele”, afirma Pondé.
Para o cientista político Adriano Cerqueira, o caso se diferencia por apresentar uma evidência mais direta ligando Vorcaro a Lula. “Pela primeira vez você já tem uma evidência aproximando Vorcaro de Lula com até mesmo um presente na forma de um uísque, item que está ficando muito simbólico nessa relação promíscua”, comenta Cerqueira.
Filho de Lula e empresária voltam ao centro das investigações
Paralelamente, desdobramentos das investigações sobre o INSS trouxeram Lulinha e Roberta Luchsinger novamente para o foco. Mensagens apreendidas pela PF revelaram que Roberta relatou viagens em voos da Força Aérea Brasileira (FAB) com Lulinha e acesso ao Palácio do Planalto.
Em uma mensagem de novembro de 2023, Roberta mencionou viajar pela FAB “com o filho do presidente” e, em outras comunicações, referiu-se a Lulinha como “sócio”. Lula já havia negado conhecer a empresária anteriormente.
Novas informações atribuídas à investigação da PF, datadas de junho de 2023, indicam que Roberta orientou seu motorista a realizar pagamentos que somavam R$ 60 mil a contas de secretários do Ministério do Desenvolvimento e a uma parente de um deles. O ministério firmou um contrato com um empresário de tecnologia, representado por Roberta, seis meses após essas mensagens.
A investigação também apura uma possível “sociedade oculta” em negócios envolvendo Lulinha, Roberta e o empresário Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”. Lulinha nega qualquer relação com irregularidades.
Conexões políticas do Banco Master sob escrutínio
As investigações sobre o Banco Master também avançaram sobre aliados de Lula, como o senador Jaques Wagner (PT-BA) e o senador Otto Alencar (PSD-BA). A PF identificou 74 ligações entre Wagner e Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro, totalizando cerca de cinco horas e meia de conversas.
Mensagens de Vorcaro descrevem o senador Otto Alencar como “conselheiro” e “comandante”, com o advogado Ciro Soares intermediando contatos. Em outra articulação, Vorcaro teria tentado mobilizar aliados para apoiar a permanência de Otto Lobo na presidência da CVM, com contatos envolvendo Alencar e Wagner.
Tanto Otto Alencar quanto Jaques Wagner negam ter interferido em favor de Lobo. O próprio presidente da CVM também nega ter solicitado ajuda a Vorcaro.
Estratégia de defesa e impacto eleitoral
Lula tem defendido as investigações, mesmo quando atingem seu filho e aliados, adotando um discurso de apoio à apuração dos fatos. Contudo, analistas ouvidos pela reportagem apontam que essa estratégia pode reforçar convicções de eleitores já decididos, mas ter pouca influência sobre o eleitorado de centro e independente.
“Ele não ganha voto com isso”, avalia Cerqueira. “O esforço dele [Lula] aqui é não perder voto.” O cientista político sugere que as novas denúncias podem antecipar um segundo turno, acelerando o “voto útil” em direção ao candidato da oposição.
Pondé acrescenta que o peso eleitoral das denúncias dependerá do que estiver em evidência no dia da votação. “O eleitor, em dúvida, que desempata, fica meio sem escolha porque o universo está saturado de corrupção”, observa. “Mas o que estiver bombando, estiver aparecendo para ele, o último escândalo que sacarem da manga e estiver endereçado a um deles pode acabar determinando o voto na eleição.”