Lula e Trump abrem debate na Assembleia Geral da ONU com agendas contrastantes: soberania e multilateralismo para o Brasil, críticas ao Irã e à ONU para os EUA.
A Assembleia Geral da ONU se inicia nesta terça-feira (22) com os discursos tradicionais de Brasil e Estados Unidos, gerando expectativas sobre as pautas que serão defendidas pelos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump. O pronunciamento brasileiro está previsto para as 10 horas (horário de Brasília), marcando o início dos debates entre líderes mundiais.
Informações de bastidores indicam que o presidente Lula deve enfatizar a importância do multilateralismo e da soberania nacional. Essa abordagem surge em um contexto onde os Estados Unidos, sob a gestão de Trump, têm demonstrado uma postura crítica em relação a organismos multilaterais, incluindo a própria ONU.
Washington também tem direcionado críticas ao Brasil, impondo tarifas e levantando questões sobre o combate a facções criminosas como o PCC e o Comando Vermelho, classificados como grupos terroristas pelos EUA. Há ainda a sinalização de possíveis sanções a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) devido a relações com o banqueiro Daniel Vorcaro. Conforme apurado, Lula não deve mencionar Trump diretamente em seu discurso, mas abordará temas como os conflitos globais, meio ambiente e sustentabilidade. As informações foram divulgadas pelo portal Gazeta do Povo.
Brasil busca protagonismo em negociações de paz e reforma da ONU
O discurso de Lula deve posicionar o Brasil como um potencial interlocutor em negociações de paz, explorando a busca por soluções diplomáticas para conflitos internacionais. Há também a possibilidade de o presidente brasileiro defender uma reforma na estrutura da ONU, visando ampliar a voz do Sul Global e adaptar a organização à nova realidade geopolítica mundial.
Maurício Fronzaglia, professor de relações internacionais da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM), comentou à Gazeta do Povo que a fala de Lula deve refletir o desejo brasileiro de ser visto como um mediador de paz. Ele também ressaltou a provável proposta de uma nova estrutura para a ONU, que reflita a atual organização mundial, considerada por ele um tanto confusa.
Trump mira críticas ao Irã e à ONU, com foco na base eleitoral
Por outro lado, Donald Trump deve manter sua linha de críticas à ONU, acusando a organização de burocracia, aparelhamento ideológico e ineficiência na resolução de problemas globais. Essa postura já foi evidenciada em seu pronunciamento anterior, onde classificou as ações da ONU como “palavras vazias” que não resolvem guerras.
Analistas projetam que o presidente americano também abordará a questão do Irã, possivelmente defendendo ações militares conjuntas com Israel e criticando as tentativas iranianas de controlar o Estreito de Ormuz, vital para o escoamento de petróleo. Richard Goldberg, consultor da Fundação para a Defesa das Democracias (FDD), sugere que Trump deve questionar outros países sobre suas ações para conter a influência iraniana na região.
Eleições internas moldam discursos de Lula e Trump na ONU
Especialistas apontam que ambos os líderes terão seus discursos influenciados por contextos eleitorais em seus respectivos países. Natali Hoff, professora de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), explica que a Assembleia Geral é uma oportunidade para ambos produzirem fatos políticos que possam beneficiar suas campanhas.
No caso de Lula, o discurso deve reforçar a defesa da soberania e das instituições democráticas, embora, diferentemente do ano anterior, possa haver cautela na defesa explícita do STF, devido à atual crise institucional. Trump, por sua vez, deve direcionar sua fala para sua base eleitoral interna, visando as eleições de meio de mandato (midterms) em novembro. Ele deve reforçar políticas econômicas unilaterais e de controle migratório, como parte da estratégia de “tornar os Estados Unidos grandes novamente”.
Repercussão e possíveis reações entre os líderes
Embora não se espere uma citação direta do Brasil no discurso de Trump, a analista Natali Hoff alerta para a reatividade do presidente americano. Ela lembra que, no ano passado, Trump reagiu de forma positiva às falas de Lula, resultando em um encontro considerado “engraçado” e com “química excelente”.
Será crucial observar se Trump reagirá às falas de Lula ou se colocará o Brasil no grupo de países criticados por não seguir os interesses americanos. Fronzaglia também prevê discursos “mais eleitoreiros”, focados em políticas que agradem aos eleitorados de cada país, sem apelos diretos ao voto, o que não é protocolar na ONU.