A espera por ação: Procurador-Geral Gonet e a peça “Esperando Gonet”
A colunista Lygia Maria, da Folha de S.Paulo, traçou um paralelo intrigante ao comparar a expectativa por ações do Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, com a famosa peça “Esperando Godot”, de Samuel Beckett. Em sua análise, a autora sugere que aguardar manifestações do PGR em meio à atual crise política do país é tão fútil quanto os personagens de Beckett esperam por uma figura que nunca chega.
Como um exercício criativo e reflexivo, foi elaborada uma hipotética peça teatral intitulada “Esperando Gonet”, imaginando como o clássico do Teatro do Absurdo seria encenado nos dias de hoje. A peça dialoga com a sensação de paralisia e a expectativa por uma figura de autoridade que, segundo a crítica, parece ausente.
A obra fictícia, inspirada na crítica de Lygia Maria, explora o sentimento de incerteza e a busca por respostas em um cenário de turbulência. A peça, que se passa em uma praça vazia, com o som distante de um debate parlamentar ao fundo, coloca dois personagens, Vladimir e Estragon, em um diálogo que reflete a angústia e a perplexidade diante da aparente inércia.
O diálogo da espera e as ações esperadas
No palco da peça “Esperando Gonet”, Vladimir e Estragon trocam questionamentos sobre a chegada e as possíveis ações do Procurador-Geral. “Ele vem?”, pergunta Estragon. Vladimir responde que “disseram que sim”, mas a dúvida persiste, ecoando a incerteza sobre a atuação do PGR. A conversa hipotética detalha as ações que seriam esperadas de um procurador-geral em tempos de crise.
As falas de Vladimir elencam medidas concretas: “Questionar formalmente atos do STF. Abrir investigações contra autoridades. Pedir abertura de inquéritos. Oferecer denúncias. Pedir medidas cautelares.” Estragon, com ceticismo, comenta sobre a “imaginação admirável” de Vladimir, reforçando a distância entre a expectativa e a realidade percebida.
A peça também aborda a duração da espera, que se estende desde o “início da crise”. Vladimir, em sua persistência, afirma que “esta é a definitiva”, mas Estragon, o cético, rebate que “todas são definitivas até a próxima”. A sensação de um ciclo interminável de crises e a falta de resolução se tornam palpáveis.
O silêncio ensurdecedor e a “velha tentação brasileira”
O silêncio que paira sobre a praça é descrito como “ensurdecedor”. Estragon questiona se o procurador “não vai fazer nada?”, e Vladimir, com resignação, admite que “acho que não”. A ausência de qualquer manifestação, seja uma nota oficial, um gesto burocrático ou uma investigação, é o cerne da crítica.
A peça de Beckett, adaptada para o contexto brasileiro, expõe a “velha tentação brasileira: a de não fazer nada, até que seja tarde demais”, como aponta o texto. A crise se agrava, as denúncias se acumulam, as instituições balançam, e a figura central que deveria agir parece compartilhar da mesma espera.
O diálogo fictício explora a possibilidade de Gonet estar “esperando o momento”, talvez o “momento perfeito”, um refúgio para a inação. Vladimir tenta defender a demora natural das investigações, mas Estragon insiste na realidade: “Às vezes duram anos.” A leitura das notícias no celular de Vladimir apenas reforça a gravidade da situação, com escândalos envolvendo o Banco Master, contratos milionários e resorts.
A esperança terceirizada e o teatro das instituições
A peça “Esperando Gonet” levanta a questão sobre o medo ou a prudência por trás da aparente inércia. Vladimir descarta ambas as hipóteses, atribuindo a postura à “velha tentação brasileira” de adiar ações até que o tempo se esgote. A agitação do país, com brigas parlamentares e jornalistas mudando de opinião, contrasta com a calma do procurador.
A lembrança de que “as instituições estavam funcionando” surge, mas Estragon questiona: “Funcionando como? Em câmera lenta?”. A resposta é mais dura: “Funcionando como um teatro. Onde todos sabem o roteiro, mas fingem surpresa.” A falta de ação do Procurador-Geral, Paulo Gonet, é retratada como parte desse espetáculo.
A esperança, segundo Estragon, foi “terceirizada para quem deveria agir”. No entanto, essa terceirização não resolve nada. A peça termina com Vladimir e Estragon ainda à espera, pois “alguém precisa esperar. Para lembrar que alguém deveria ter vindo.” A incerteza sobre o futuro e a ação de Gonet permanece, em um eco do absurdo de Beckett.