A Tragédia dos Comuns na Paisagem Urbana: Por Que os Postes Viraram um Emaranhado de Fios?
Olhar para cima em muitas ruas do Brasil é se deparar com um cenário de fios, cabos e emendas sobrepondo os postes. Essa poluição visual, tão comum que se tornou quase invisível, esconde uma complexa questão econômica, semelhante à clássica “tragédia dos comuns”.
A teoria, popularizada por Garrett Hardin em 1968, explica como recursos compartilhados podem ser degradados quando decisões individuais benéficas para cada agente levam a um resultado negativo coletivo. No caso dos postes, o espaço é limitado e precisa acomodar as redes de diversas empresas de telecomunicações e energia.
Para uma operadora, instalar um novo cabo representa a possibilidade de atender um cliente e gerar receita. No entanto, o custo de remover um cabo que já não está em uso é um gasto que não traz retorno financeiro direto. Essa dinâmica, aliada a uma fiscalização muitas vezes difícil e responsabilidades pouco claras, cria um incentivo perigoso: instalar compensa, mas retirar, nem sempre.
O Custo Econômico por Trás da Degradação Urbana
O resultado dessa lógica individualista é o acúmulo de fios nos postes. Cada empresa, ao deixar um cabo sem uso, realiza uma pequena economia. Contudo, quando essa prática se multiplica entre diversas operadoras, a cidade como um todo arca com os custos em forma de **poluição visual**, dificuldade de manutenção e até riscos de segurança.
As regras para a organização desse espaço já existem, envolvendo empresas, distribuidoras de energia, órgãos reguladores como a Aneel e Anatel, e o poder público. O grande desafio reside em fazer a **estrutura de governança funcionar**: identificar os responsáveis, fiscalizar de maneira eficaz e cobrar resultados, tudo isso com segurança jurídica e dentro de prazos razoáveis.
Soluções Baseadas na Economia e na Governança
Elinor Ostrom, ganhadora do Prêmio Nobel de Economia em 2009, demonstrou que a “tragédia dos comuns” não é um destino inevitável. Ela apontou que com **regras claras**, identificação dos usuários dos recursos compartilhados, monitoramento constante e mecanismos de responsabilização, é possível preservar esses bens comuns.
Aplicando essa visão aos postes, a solução fundamental seria estabelecer uma regra elementar: **todo cabo deve ter um dono identificado**, e esse dono deve ser responsabilizado por fios abandonados. A retirada de cabos sem uso deveria ser obrigatória em um prazo definido, e o abandono deveria gerar um custo maior do que a própria remoção.
Da próxima vez que você olhar para um poste sufocado por uma teia de cabos, lembre-se que ali se manifesta uma **pequena aula de economia urbana**. São benefícios privados, custos compartilhados e responsabilidades dispersas. Cada fio que parece não pertencer a ninguém contribui para um emaranhado que, no fim, pertence a todos nós.