A arte é livre, mesmo para as “Donas Florindas” da cultura brasileira
O Brasil vive um período de intensa guerra cultural, onde a tentativa de controlar o significado e o consumo da arte se tornou um campo de batalha. Três casos recentes, envolvendo Chico Buarque, Gilberto Gil, Djavan, Legião Urbana e Ana Castela, espelham essa degradação, mas também apontam para a resiliência da arte e a autonomia do público.
Artistas consagrados buscam nos tribunais o controle sobre o uso de suas músicas, enquanto outros, como o filho de Renato Russo, adotam posturas contraditórias na liberação de seu legado. Paralelamente, a jovem Ana Castela enfrenta pedidos de cancelamento por uma foto, mas seu público demonstra uma independência surpreendente.
Esses episódios revelam uma “Síndrome de Dona Florinda” na cultura brasileira, onde se tenta isolar e proteger a obra de influências indesejadas, sem sucesso. A arte, no entanto, prova sua capacidade de ser livre, de transitar por diferentes esferas e de ser apreciada por quem a consome, independentemente das intenções de seus criadores. As informações são baseadas em análise recente sobre o cenário cultural.
Chico, Gil e Djavan contra a “gentalha” ideológica
Chico Buarque, Gilberto Gil e Djavan entraram com um processo contra a deputada estadual Ana Campagnolo (PL-SC). A ação alega que o uso de suas músicas em um curso promovido por um “Clube Antifeminista” ocorreu sob “falsas premissas”. A autorização inicial teria sido concedida para um uso “didático e lúdico” da história da MPB, mas os artistas consideram que houve desvio de finalidade.
A crítica central é que a distinção entre pedagogia e propaganda coincide com a concordância ou discordância com o compositor. Essa atitude é comparada à “Síndrome de Dona Florinda”, que tenta impedir que seu filho, o Quico, se “misture com essa gentalha”, substituindo a vassoura por advogados.
Apesar de possíveis vitórias judiciais, a tentativa de controlar a interpretação pública das obras é vista como inútil. Conforme a teoria de Roland Barthes, uma vez publicada, a obra ganha vida própria, e o poder sobre seu significado migra para o consumidor. Tentar impor uma “coleira ideológica” a um patrimônio afetivo da nação é, além de fútil, uma tentativa de limitar a transcendência da arte.
Legião Urbana: Licença para um lado, bloqueio para o outro
Enquanto os “dinossauros da MPB” acionavam seus advogados, Giuliano Manfredini, filho de Renato Russo e detentor dos direitos da Legião Urbana, autorizou o uso da música “Fábrica” na campanha de José Dirceu. Essa liberação contrasta com ações anteriores do mesmo Manfredini, que notificou o partido de Romeu Zema pelo uso de “Que País É Este” e pediu a derrubada de vídeos bolsonaristas com a mesma canção.
Essa contradição expõe a “claustrofobia cultural” do país. Marcelo Bonfá, baterista original da banda, divergiu dessa lógica. Ele reclamou não do uso político em si, mas da conversão da música em cabo eleitoral, acreditando que Renato Russo rejeitaria qualquer uso ideológico de seu repertório, que “pertence ao povo e à nação brasileira”.
Bonfá busca salvar a alma da canção da engrenagem da propaganda, enquanto outros tentam um monopólio da virtude. A luta é pelo direito à independência estética, mostrando que a arte não deve ser aprisionada em caixas ideológicas.
Ana Castela e o “cancelamento” que não pegou
A jovem estrela sertaneja Ana Castela gerou polêmica ao tirar uma foto nos bastidores de um show com o deputado federal Nikolas Ferreira. Imediatamente, fiscais ideológicos decretaram seu cancelamento.
No entanto, o resultado da “fúria inquisitorial” foi mínimo. O perfil da cantora atingiu 25 milhões de seguidores, e não há notícias de shows esvaziados ou marcas em fuga. O público demonstrou, mais uma vez, que “não pediu licença para gostar de quem quiser”.
Diferente das primas-donas da MPB, Ana Castela não parece buscar educar ou posar de bússola moral. Sua foto com Ferreira representa, no máximo, uma preferência político-eleitoral, sem impor essa visão a quem a ouve. O risco de afastar parte do público existe, mas o desencontro se dá mais pela tolice de quem não sabe separar o artista de sua obra.
A arte é livre, para além das ideologias
No fim das contas, é possível apreciar a métrica de Chico Buarque, o rock da Legião Urbana e a música de Ana Castela sem precisar de filiação partidária ou ideológica. Todos sabem que a arte é livre e transcende as tentativas de aprisioná-la em caixas ideológicas ou reduzi-la a jingles de ocasião.
A música, para o desespero de quem deseja controlá-la, é irremediavelmente livre. Ela sobrevive aos comícios, aos tribunais e até mesmo aos seus criadores, mantendo-se soberana no coração de quem a aprecia pelo que ela é, e não pelo crachá ideológico de quem a produziu.