Guerra no Irã: Quem Ganha e Quem Perde no Brasil com o Petróleo Caro e o Dólar em Alta

Guerra no Irã: Quem Ganha e Quem Perde no Brasil com o Petróleo Caro e o Dólar em Alta

Resumo

Guerra no Irã: A economia brasileira sente os efeitos da alta do petróleo e do dólar

A recente ofensiva conjunta entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, iniciada em 28 de fevereiro, desencadeou uma onda de instabilidade econômica que já reverbera no Brasil. O conflito no Oriente Médio elevou drasticamente o preço do petróleo, fortaleceu o dólar e interrompeu rotas comerciais vitais, gerando um cenário de incertezas para diversos setores da economia nacional.

Os mercados financeiros reagiram quase instantaneamente, com o preço do barril de petróleo disparando e o dólar ganhando força frente ao real. A interrupção do tráfego no Estreito de Ormuz, por onde passa uma parcela significativa do comércio global de petróleo e gás natural liquefeito (GNL), intensifica as preocupações com a volatilidade e a escassez de insumos.

O impacto não é uniforme no Brasil. Enquanto o governo e as petroleiras veem benefícios no petróleo mais caro, setores como o agronegócio, o transporte e o consumidor final enfrentam o ônus dessa nova realidade. Conforme informações divulgadas por veículos como a XP Investimentos e a Célere, o conflito traz um saldo desigual para a economia brasileira.

Petróleo em alta e o Estreito de Ormuz sob tensão

O choque inicial no mercado de petróleo e a interrupção logística no Estreito de Ormuz, por onde escoa cerca de 20% do comércio global de petróleo, trouxeram consequências imediatas. O preço do Brent, principal referência internacional, pode ultrapassar os US$ 100, segundo Regis Cardoso, head de Óleo e Gás da XP Investimentos, caso a situação se prolongue. Essa volatilidade afeta diretamente insumos essenciais, como fertilizantes, cujos fornecedores já retiram ofertas.

Enilson Nogueira, coordenador de estudos econômicos da Célere, alerta para um cenário de volatilidade e incerteza sobre produtos relacionados à região. A dependência de fertilizantes importados, com uma parcela significativa vinda do Oriente Médio, coloca o agronegócio brasileiro em posição de vulnerabilidade.

Quem ganha e quem perde no curto prazo

O aumento do preço do petróleo beneficia diretamente as petroleiras e o governo federal, que arrecada mais com royalties e participações especiais. A XP projeta que um aumento de US$ 10 no barril pode injetar R$ 10,7 bilhões adicionais no resultado primário do governo em 2026 e incrementar a balança comercial em US$ 8,5 bilhões.

Por outro lado, o setor aéreo já sente os efeitos, com o aumento de 9,4% no preço do querosene de aviação e cancelamento de voos. Transportadores e motoristas de aplicativo também sofrem com a defasagem nos preços do diesel e da gasolina, que não acompanham a mesma velocidade das oscilações do petróleo.

No mercado financeiro, o Ibovespa registrou recuo com a saída de capital estrangeiro. Jonathan Araújo, da InvestSmart XP, explica que, em momentos de tensão internacional, investidores tendem a buscar posições mais defensivas, afastando-se de mercados emergentes como o Brasil.

Inflação e a pressão sobre o Banco Central

A desvalorização do real, que passou de R$ 5,13 para R$ 5,28 em menos de uma semana, pressiona a inflação. Os efeitos nos combustíveis devem chegar às bombas em até duas semanas. O Banco Central, que já considerava um corte de meio ponto percentual na Selic, agora enfrenta a possibilidade de reduzir o corte para 0,25 p.p. ou até mesmo suspender a queda.

Com o mercado de trabalho aquecido, o Brasil se torna mais sensível a choques inflacionários externos, segundo Peterson Rizzo, da Multiplike. Modelos do BTG indicam que a manutenção do Brent a US$ 80 pode adicionar 0,6 ponto percentual à inflação de 2026, elevando a projeção para 4,7%, acima do teto da meta.

Agronegócio no centro do furacão

O agronegócio é um dos setores mais expostos. O Brasil importa entre 80% e 85% de seus fertilizantes, e a dependência do Oriente Médio é significativa, especialmente para ureia, fosfatados e cloreto de potássio. Maria Luisa Franzotti, analista da Célere, prevê um impacto imediato e severo no mercado de fertilizantes, com destaque para os nitrogenados.

A alta do petróleo também encarece o diesel e pressiona os fretes marítimos, afetando a competitividade do produtor, como ressalta André Aidar, do Lara Martins Advogados. O efeito se propaga para o frete rodoviário e, consequentemente, para o preço dos alimentos no varejo.

O Irã é um destino importante para o milho brasileiro, tendo importado mais de 9 milhões de toneladas em 2025. A incerteza sobre a demanda e as condições logísticas pode impactar a formação de preços e aumentar estoques no Brasil, pressionando o preço do milho para baixo, segundo Nogueira. O impacto se estende à proteína animal, com o Oriente Médio respondendo por 26% das exportações de carne de frango e 6% de carne bovina, reduzindo a demanda por ração.

Estagflação e incertezas estruturais no horizonte

Se o conflito se prolongar, o Brasil pode enfrentar um ambiente de estagflação, caracterizado por baixo crescimento e inflação persistente. A combinação de choque de custos, câmbio depreciado e possíveis restrições comerciais forma um cenário adverso. Ruben Nizard, da Coface, alerta que um conflito prolongado terá um impacto macroeconômico significativo, indo além do setor de energia.

A longo prazo, contudo, o Brasil pode se consolidar como um fornecedor seguro em um mundo fragmentado, aproveitando novas fronteiras de exploração de petróleo e evitando retornar à condição de importador.

Tags:

Notícias todos os dias!

De domingo a domingo, as notícias que você não pode perder em seu e-mail.

Veja também