Documentos internos do Ministério da Agricultura revelam grave cenário para o setor de fertilizantes, com potencial desabastecimento e aumento de custos.
Técnicos do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) emitiram um alerta interno sobre o “elevadíssimo risco” de desabastecimento e elevação de preços de fertilizantes no Brasil. As preocupações se concentram na safra que será plantada a partir do segundo semestre de 2026, mas os efeitos já são sentidos.
O cenário é agravado pelo conflito no Irã, um dos maiores fornecedores globais de ureia, e por restrições de exportação impostas pela China. Esses fatores, combinados com a alta dependência brasileira de insumos importados, criam um ambiente de grande vulnerabilidade para o agronegócio.
A avaliação, detalhada em duas notas técnicas urgentes obtidas pelo jornal Folha de S. Paulo, aponta para impactos severos na logística e nos preços das matérias-primas, com consequências diretas para a produtividade agrícola brasileira. Conforme informação divulgada pela Folha de S. Paulo, os documentos foram encaminhados ao secretário-executivo da pasta.
Ameaça no Oriente Médio: Fechamento do Estreito de Ormuz e Impacto na Ureia
O documento do Mapa destaca que o fechamento do Estreito de Ormuz pela Guarda Revolucionária do Irã gerou uma disparada nos custos de frete marítimo e do gás natural, insumo essencial para a produção de ureia. O Irã é um fornecedor crucial de fertilizantes nitrogenados, amplamente utilizados na agricultura brasileira.
A Agência Internacional de Energia (IEA) já documentou que interrupções no fornecimento de gás e nos fluxos comerciais, como ocorreu no conflito Israel-Irã em 2025, levaram à redução na produção de fertilizantes. Isso evidenciou a ligação direta entre a segurança do suprimento de gás e a segurança alimentar global.
Para os técnicos do Mapa, o risco imediato é o aumento dos custos, atrasos na reposição de estoques e piora nas condições de compra para a próxima safra. Culturas importantes como soja, trigo, cana-de-açúcar e café estão expostas a esse choque de preços.
China Restringe Exportações e Agrava o Cenário de Fertilizantes Fosfatados
Somando-se às preocupações com o Irã, a China, um dos principais fornecedores de fertilizantes fosfatados para o Brasil, impôs restrições às suas exportações. A decisão visa garantir o abastecimento interno chinês e limita as vendas internacionais do insumo até meados deste ano.
A China é o terceiro maior fornecedor de fertilizantes fosfatados para o Brasil, atrás de Marrocos e Egito. O país asiático aumentou sua participação no mercado brasileiro após o início da guerra na Ucrânia, quando sanções dificultaram a compra de fertilizantes da Rússia e de Belarus.
Análises do Mapa indicam um “alto risco real de um déficit de volume estimado entre 1 e 3 milhões de toneladas de fertilizantes fosfatados em 2026”. Esse cenário pode comprometer a produtividade das safras 2026/2027, afetando a segurança alimentar e a competitividade do agronegócio brasileiro.
Dependência Histórica: Plano para Reduzir Importação de Fertilizantes Não Avança
A dependência do Brasil de fertilizantes importados é um problema crônico. Apesar do lançamento do Plano Nacional de Fertilizantes (PNF) em 2022, com o objetivo de reduzir a participação de insumos importados de 85% para 45% até 2050, os dados mais recentes mostram estagnação.
Segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda), o Brasil importou 43,3 milhões de toneladas de fertilizantes em 2023, enquanto a produção nacional atingiu apenas 7,2 milhões de toneladas. Essa alta dependência torna o país extremamente vulnerável a choques externos e à volatilidade dos preços internacionais.
Preços Já em Alta e Mercado Internacional em Alerta
A análise da empresa de serviços financeiros StoneX corrobora os apontamentos do Mapa. Os preços dos fertilizantes nitrogenados já registram alta no Brasil desde o início do conflito no Oriente Médio. Na última semana, a ureia subiu 15% nos portos brasileiros, e o nitrato de amônio teve uma valorização de cerca de 28%.
Tomás Pernías, analista de Inteligência de Mercado da StoneX, explica que muitos fornecedores retiraram suas ofertas do mercado em busca de maior clareza, enquanto a produção de nitrogenados no Catar foi reduzida após ataques no país, diminuindo a disponibilidade global.
O Oriente Médio responde por aproximadamente 40% das exportações mundiais de ureia. Qualquer interrupção prolongada na região pode gerar impactos significativos na oferta global, especialmente se o conflito se estender por semanas ou meses. O risco de escassez de fertilizantes fosfatados pode atingir até 20% da demanda nacional.