Flávio Augusto: A Saga de um Empreendedor que Desafiou o Sistema e Construiu um Império
Quem vê hoje a gigante rede de escolas de inglês Wise Up e o grupo educacional Wiser pode não imaginar os desafios, as apostas audaciosas e os recomeços que moldaram a trajetória de Flávio Augusto, hoje um dos empresários mais influentes do Brasil.
Antes de se tornar um nome bilionário, Flávio Augusto era um jovem que enfrentava o Rio de Janeiro de ônibus para vender cursos de inglês, utilizando telefones públicos para prospectar clientes. Sua jornada é marcada pela busca incessante por estabilidade e, ao mesmo tempo, pela quebra de padrões.
Apesar de ter passado pela preparação para o Colégio Naval e iniciado um curso de Ciência da Computação, Flávio descobriu sua vocação nas vendas. Aos 23 anos, já diretor comercial em uma empresa de idiomas, decidiu arriscar tudo em seu próprio negócio. Conforme informações divulgadas pela Gazeta do Povo, essa matéria faz parte da série “Apesar do Estado”, que retrata empresários brasileiros que superaram adversidades.
A Arriscada Aposta no Cheque Especial para Fundar a Wise Up
Em 1995, Flávio Augusto e sua esposa deram um passo ousado: pegaram R$ 20 mil emprestados do cheque especial, com juros exorbitantes de 12% ao mês, para abrir a primeira unidade da Wise Up. O valor mal cobriu os custos iniciais de reforma, aluguel e contratação de pessoal.
A tese de Flávio era clara: com a abertura econômica do Brasil e a chegada de multinacionais, havia um público ávido por aprender inglês rapidamente para alavancar suas carreiras. Ele propôs um curso de 18 meses, um tempo significativamente menor que o padrão do mercado.
Embora a história do cheque especial seja recorrente, o próprio Flávio Augusto, em entrevista à Folha de S. Paulo em 2014, ressaltou que essa estratégia é “tecnicamente desaconselhável” e não recomendaria a ninguém repetir o feito.
Expansão, Perdas e a Conquista de um Time de Futebol
O sucesso inicial foi estrondoso. A primeira unidade da Wise Up alcançou mil alunos em seu primeiro ano e, em três anos, a rede já contava com 24 escolas próprias e mais de mil funcionários. O modelo de franquias, implementado em 2000, expandiu a rede para 396 unidades antes de sua venda.
Apesar do crescimento, os tropeços não foram evitados. Em 2008, Flávio Augusto sofreu uma perda de cerca de R$ 12 milhões em investimentos na Bolsa de Valores, em decorrência da crise financeira global. Em 2013, vendeu a Wise Up para a Abril Educação por R$ 877 milhões.
Morando nos Estados Unidos, Flávio Augusto observou o crescimento do futebol no país e, em 2015, adquiriu o Orlando City, clube que viria a disputar a Major League Soccer (MLS). O clube foi vendido em 2021 por um valor estimado entre US$ 400 milhões e US$ 450 milhões.
O Retorno à Wise Up e a Superação da Pandemia
Dois anos após vender a Wise Up, Flávio Augusto a recomprou por cerca de R$ 390 milhões. A empresa enfrentava desafios, como um EBITDA em queda e uma taxa de inadimplência de 42%. Flávio investiu US$ 16 milhões nos primeiros meses para reerguer o negócio.
A pandemia de COVID-19 apresentou um novo desafio. Com cerca de 400 escolas presenciais, a Wise Up precisou acelerar sua transformação digital, iniciada em 2019 com o lançamento de uma plataforma online. Flávio recomendou aos franqueados a migração para o digital.
Essa transição resultou em um aumento expressivo no número de alunos, que saltou de aproximadamente 80 mil para 400 mil. A Wise Up passou a integrar o grupo Wiser, que em janeiro de 2026 registrou faturamento de R$ 610 milhões e EBITDA de R$ 220 milhões, com mais de 500 mil alunos.
O Custo de Empreender no Brasil e a Busca Contínua por Novos Horizontes
Flávio Augusto frequentemente critica o “custo Brasil”, citando a burocracia, a complexidade tributária e as regras trabalhistas como entraves ao empreendedorismo. Ele contrasta essa realidade com a segurança jurídica e a governança encontradas nos Estados Unidos.
Apesar dos desafios, o empresário considera o Brasil um “mercado extraordinário”, com grande potencial de consumo e escala. Aos 54 anos, Flávio Augusto continua em busca de novos projetos, como uma liga de negócios focada em mentoria e relacionamento empresarial.
O jovem que cruzava o Rio de ônibus para mudar de vida alcançou o sucesso financeiro, mas sua inquietação o impulsiona a seguir construindo e inovando, transformando o trabalho em diversão e a busca por novos desafios em sua constante jornada.