Ex-presidente da Amprev sob pressão? Investigação apura se Jocildo Lemos foi forçado a investir R$ 400 milhões no Banco Master

Ex-presidente da Amprev sob pressão? Investigação apura se Jocildo Lemos foi forçado a investir R$ 400 milhões no Banco Master

Resumo

Investigação apura se ex-presidente da Amprev foi pressionado a investir R$ 400 milhões no Master

As investigações sobre os aportes que totalizaram R$ 400 milhões da Amapá Previdência (Amprev) no Banco Master avançam sobre um ponto crucial: se o ex-presidente da autarquia, Jocildo Lemos, foi pressionado, orientado ou induzido a concretizar os investimentos. Caso isso se confirme, os atores por trás do esquema serão identificados.

Lemos, aliado político do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, foi indicado para chefiar o fundo de previdência de servidores do Amapá. O fundo realizou investimentos de alto risco mesmo após receber alertas de conselheiros e órgãos públicos. A investigação é conduzida pela Polícia Federal e pelo Ministério Público estadual.

Segundo apuração da Gazeta do Povo, as frentes de apuração buscam responder a três questões centrais: se houve influência externa ou pressão política sobre Jocildo Lemos, se o processo decisório foi acelerado deliberadamente e se o credenciamento do banco e as diligências foram suficientes para resguardar os recursos previdenciários. Conforme informações que acompanham a investigação, uma auditoria do Ministério da Previdência Social, compartilhada com a Polícia Federal, identificou indícios de possível influência externa nas decisões que resultaram na aplicação milionária em letras financeiras do banco de Daniel Vorcaro, sem cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

Declaração de “peso nas costas” levanta suspeitas

O caso ganhou nova dimensão após a revelação de que Lemos, ao final da reunião que aprovou o primeiro aporte de R$ 200 milhões em 12 de julho de 2024, afirmou que a decisão havia “tirado um peso das [suas] costas”. Essa declaração, registrada em áudio e mencionada na auditoria, não constou na ata oficial. Para os auditores, a fala pode indicar “comprometimento ou influência externa” no processo decisório.

A partir desse episódio, investigadores passaram a analisar se o dirigente agiu por convicção técnica ou sob pressão política ou institucional. Lemos foi indicado ao cargo com apoio do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), de quem é aliado político e com quem atuou como tesoureiro de campanha em 2022. Alcolumbre não é investigado e declarou não ter relação com os investimentos, defendendo rigor nas apurações.

Investigações apontam para processo decisório acelerado e credenciamento questionável

Os aportes que totalizaram R$ 400 milhões foram aprovados em três reuniões consecutivas entre 12 e 30 de julho de 2024. A proposta foi apresentada por um conselheiro descrito nas investigações como o principal articulador dos investimentos no Master. Na primeira reunião, foram aprovados R$ 200 milhões. Na semana seguinte, houve resistências de conselheiros à proposta de novo aporte de R$ 100 milhões, especialmente após um parecer técnico da Caixa Econômica Federal classificar a operação como “altamente arriscada”.

Registros das reuniões mostram que Lemos minimizou as preocupações, atribuindo um parecer negativo da Caixa a “histórias do mercado” e votando favoravelmente ao investimento, que foi aprovado por maioria. Na terceira reunião, mais R$ 100 milhões foram autorizados, representando um terço da disponibilidade financeira do fundo na época. Investigadores analisam se a condução acelerada das votações indica uma decisão previamente alinhada.

Documentação padronizada e “negligência incompatível”

Outro elemento que reforçou as suspeitas foi a constatação de que o credenciamento do Banco Master para receber recursos de fundos de pensão teria sido feito com documentos padronizados, idênticos aos apresentados em pelo menos outros três fundos. Segundo uma auditoria do Ministério da Previdência, esses textos continham descrições elogiosas ao banco, sem análise técnica aprofundada de riscos. Técnicos da Amprev admitiram que a documentação foi elaborada pelo próprio banco.

Para os auditores, houve “negligência incompatível” com a responsabilidade fiduciária de gestores previdenciários. Os investigadores querem saber se Jocildo Lemos tinha conhecimento da origem dos documentos e se houve direcionamento para aprová-los sem análise autônoma. A Polícia Federal também examina a atuação do conselheiro que liderou a defesa dos investimentos, que já é investigado por irregularidades em outro fundo de previdência no Amapá.

Amprev busca ressarcimento e garante pagamento de aposentadorias

Em nota, a Amprev declarou se sentir lesada pelo Banco Master e que buscará ser ressarcida, tendo ingressado com medidas judiciais e conseguido o bloqueio de pagamentos ao banco. A instituição espera que a Justiça seja feita e os contraventores punidos.

A Amprev reforça que os investimentos no Banco Master, validados pelo Banco Central, representam 4,7% do total da carteira da instituição. Sob a gestão de Lemos, o patrimônio da Amprev cresceu 41% entre 2023 e 2025, garantindo o pagamento de aposentados e pensionistas até 2059. Lemos, em seu pedido de exoneração, afirmou que o fez para que a Justiça atue com total independência e comprove a legalidade dos procedimentos sob sua gestão.

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