O Irã em chamas: Uma vantagem inesperada para Putin na Ucrânia e no mercado de petróleo
A guerra no Oriente Médio, com o foco voltado para o Irã, e a subsequente disparada na cotação do petróleo internacional podem, paradoxalmente, beneficiar a Rússia. Este conflito drena a atenção militar dos Estados Unidos e seus aliados, que antes se concentravam na guerra em curso na Ucrânia.
Enquanto o aumento do preço do barril de petróleo alivia a pressão financeira sobre a Rússia, permitindo a Vladimir Putin sustentar sua invasão na Ucrânia, o foco global se desloca. A Rússia, segundo maior exportador de petróleo do mundo e sob sanções ocidentais, encontra um alívio temporário no setor energético.
Os Estados Unidos anunciaram uma licença temporária que suspende, por um mês, as sanções sobre o petróleo russo já embarcado. Essa medida, somada a uma isenção concedida anteriormente às refinarias da Índia, visa estabilizar o mercado. Conforme informação divulgada pelo The New York Times, Putin incentivou empresas russas a aproveitarem o momento, sugerindo que a União Europeia poderia reconsiderar seus planos de reduzir a dependência energética russa a longo prazo.
Novos recursos para a prolongada invasão na Ucrânia
A Rússia tem enfrentado dificuldades econômicas para manter o ritmo na Ucrânia, em grande parte devido às sanções ocidentais. O Produto Interno Bruto (PIB) russo em 2025 cresceu apenas 0,5%, o pior desempenho desde o início da guerra em 2022. O Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê uma alta de 0,8% para este ano.
Eduardo Galvão, especialista em risco político e professor do Ibmec Brasília, explica que a Rússia financia sua máquina de guerra com petróleo e gás, que representam uma parcela significativa das receitas federais. “Cada dólar adicional no barril melhora a capacidade de Moscou de sustentar o esforço militar na Ucrânia”, alerta Galvão.
A duração do conflito no Oriente Médio determinará o quão significativamente a Rússia se beneficiará. Se for uma questão de semanas, o impacto pode ser mínimo. Contudo, se a guerra se estender por meses, a economia russa poderá colher frutos mais prolongados. Galvão ressalta que esses conflitos simultâneos redistribuem custos e prioridades internacionais, permitindo que a Rússia respire mais em uma guerra que é, essencialmente, uma disputa de resistência econômica e industrial.
Desvantagens e alianças em xeque
Adriano Gianturco, coordenador de Relações Internacionais do Ibmec BH, aponta desvantagens para Putin na guerra no Irã. Ele menciona a proximidade do regime iraniano com a China e como um enfraquecimento de Teerã pode desacelerar a economia de Pequim, um parceiro crucial de Moscou. Além disso, a aliança estratégica Irã-Rússia para o fornecimento de drones Shahed, essenciais para a invasão da Ucrânia, pode ser comprometida, pois o Irã estaria utilizando esses recursos em seu próprio território.
Atenção desviada e estoques de armas em risco
Além do potencial financiamento de guerra, o conflito no Oriente Médio desvia a atenção dos principais aliados da Ucrânia: Estados Unidos e Europa. Há preocupação sobre o desvio de recursos bélicos ocidentais para uma nova frente de combate. Analistas do think tank Globsec, Marcin Zaborowski e Tomáš Nagy, alertam que a preocupação com os estoques de armas americanos destinados à Ucrânia já existia antes da escalada no Irã.
O esgotamento dos principais estoques americanos de munições de precisão, como os interceptores Patriot, está se acelerando com a guerra contra o Irã. Trump, por sua vez, afirmou que empresas de defesa estão produzindo armamentos sob “ordens de emergência” para atender à demanda. Moscou, segundo os analistas, calcula que a distração americana no Oriente Médio reduz a credibilidade das ameaças dos EUA de aumentar a pressão sobre a Rússia caso as negociações de paz fracassem.
Ucrânia busca aliados e Trump negocia com Putin
O governo ucraniano tem colaborado com os EUA na guerra contra o Irã, enviando drones interceptadores e especialistas para auxiliar na derrubada de drones iranianos, conforme pedido de ajuda dos EUA, segundo informou o presidente Volodymyr Zelensky ao The New York Times. Kiev busca ganhar pontos com os EUA nas negociações de paz, que foram paralisadas com o início de uma nova guerra.
Apesar da mobilização ucraniana, Donald Trump tem se mostrado mais inclinado a negociar com Putin, com quem conversou recentemente. Trump teria dito a Putin que ele poderia ser “ainda mais útil” se ajudasse a encerrar a guerra na Ucrânia. O Kremlin, por sua vez, destacou que o líder russo apresentou “várias propostas” para um acordo político-diplomático no conflito iraniano.
Impacto no fornecimento de drones e reserva de petróleo
Um lado negativo da guerra contra o Irã para a Rússia é o potencial enfraquecimento da cooperação militar entre o Kremlin e o regime iraniano. Um Irã enfraquecido produzirá menos drones e tecnologia de mísseis, impactando a parceria de defesa. No entanto, isso não resolve a crise atual da Ucrânia em termos de atenção, materiais e diplomacia.
Em resposta à instabilidade no mercado internacional de energia, a Agência Internacional de Energia (AIE) recomendará a liberação de 400 milhões de barris de petróleo, a maior da história. Os membros do G7 apoiam medidas proativas da AIE para conter a situação, enviando uma mensagem clara de que as reservas estratégicas serão utilizadas se o Estreito de Ormuz não puder ser aberto imediatamente, conforme afirmou o ministro das Finanças francês, Roland Lescure.