Obra inédita de J.R.R. Tolkien, 'Soul's Ward', descoberta em Oxford: O lado medievalista do criador da Terra-média

Obra inédita de J.R.R. Tolkien, ‘Soul’s Ward’, descoberta em Oxford: O lado medievalista do criador da Terra-média

Resumo

Descoberta em Oxford: Obra Inédita de J.R.R. Tolkien Revela o Filólogo Medievalista por Trás da Terra-média

Um tesouro literário foi desenterrado na renomada Biblioteca Bodleiana, em Oxford. O pesquisador Andoni Cossio, enquanto trabalhava em uma obra de referência sobre J.R.R. Tolkien, se deparou com um manuscrito datilografado e inédito do autor, intitulado Soul’s Ward (A Guarda da Alma). A descoberta, que ocorreu de forma inesperada, lança nova luz sobre o lado acadêmico e medievalista de Tolkien, muitas vezes ofuscado pela fama de seus mundos fantásticos.

Este datiloscrito de dez páginas, surpreendentemente limpo e com correções à mão em caligrafia cuidadosa, passou despercebido por décadas, catalogado incorretamente entre outros papéis. A obra é uma adaptação livre de uma homilia em prosa do século XIII, mostrando a profunda dedicação de Tolkien ao estudo e à tradução de textos medievais, uma paixão que moldou significativamente sua imaginação criativa e sua linguagem.

A descoberta, publicada na revista The Review of English Studies, demonstra que o legado de J.R.R. Tolkien continua a render novidades, mesmo meio século após sua morte. O trabalho inédito, Soul’s Ward, tem o potencial de atrair leitores para o universo da literatura medieval, assim como suas traduções de poemas épicos como Beowulf e Sir Gawain e o Cavaleiro Verde já fizeram.

O Filólogo Medievalista Revelado

Antes de se tornar mundialmente conhecido como o criador de O Senhor dos Anéis, J.R.R. Tolkien era um dos mais proeminentes estudiosos de língua e literatura medievais do século XX. Sua especialidade era um dialeto do inglês médio, que ele mesmo batizou de língua AB. Em 1929, Tolkien publicou um ensaio fundamental para a área, defendendo a existência de uma língua literária padronizada na região das West Midlands inglesas no início do século XIII.

Essa profunda imersão no passado linguístico e literário da Inglaterra serviu de base para a construção da Terra-média. As paisagens de sua infância, nas mesmas terras que inspiraram seus estudos medievais, foram transfiguradas em cenários fantásticos. O trabalho em Soul’s Ward, datado de 1955 ou 1956, revela Tolkien empenhado em verter para o inglês moderno uma homilia com mais de setecentos anos, demonstrando sua paixão duradoura por esses textos.

A Alegoria de ‘Soul’s Ward’

Soul’s Ward, ou A Guarda da Alma, é a tradução de Tolkien para Sawles Warde, uma homilia do início do século XIII. O texto original, uma adaptação latina para anacoretas e freiras de clausura, utiliza uma rica alegoria. O corpo é retratado como uma casa onde a alma imortal reside, cercada pelos vícios comandados pelo Diabo.

Nesta alegoria, a Razão é o senhor da casa, a Vontade é sua esposa indisciplinada, os cinco sentidos são os criados e as quatro virtudes cardeais são as filhas do senhor. A Prudência, em particular, é encarregada da porta, decidindo quem entra e quem permanece do lado de fora. O texto inclui diálogos com mensageiros como o Medo, que anuncia a Morte e descreve o inferno, e o Amor-da-Vida, que relata a visão do céu.

Um Legado em Constante Descoberta

A tradução de Tolkien para Soul’s Ward, embora nunca publicada em vida, reflete seu estilo de tradução literal e fluente, com um tom levemente arcaico. Ele priorizou a clareza do sentido em detrimento da aliteração original, resultando em uma versão acessível e envolvente. A opção por não publicar muitos de seus trabalhos acadêmicos era característica de Tolkien, que produzia vastamente sem necessariamente buscar a publicação.

O datiloscrito de Soul’s Ward teve um percurso particular até chegar à Biblioteca Bodleiana. Tolkien enviou uma cópia para seu ex-aluno e especialista em homilias, Thomas Patrick Dunning, em meados dos anos 1950. Após a morte de Dunning, o manuscrito foi encontrado por Alan Bliss, que o encaminhou a Christopher Tolkien, filho do autor. Christopher confirmou que o texto era de seu pai e datado dos anos 1950. A descoberta inédita de Soul’s Ward reafirma a importância de Tolkien não apenas como contador de histórias, mas como um erudito dedicado à preservação e à interpretação de textos que moldaram a cultura ocidental.

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