Desemprego em Baixa, Mas o “Pleno Emprego” é uma Ilusão? Entenda os Dados e a Realidade
O Brasil celebra a queda na taxa de desemprego, que atingiu 5,2% no trimestre encerrado em novembro de 2025, o menor índice desde 2012. O governo federal exalta o feito como prova de um sucesso econômico e social inquestionável, alinhando-se a padrões internacionais onde índices semelhantes indicam pleno emprego.
No entanto, essa análise simplificada ignora a complexidade do mercado de trabalho brasileiro. A comparação direta com economias desenvolvidas, como Estados Unidos, Zona do Euro ou Reino Unido, falha em captar as particularidades locais. O indicador oficial de desemprego, por si só, não reflete a qualidade das vagas, a informalidade crescente ou o desalento de quem desistiu de procurar trabalho.
A realidade é que o chamado “pleno emprego” pode ser apenas um constructo estatístico, distante da vivência diária de muitos trabalhadores. Essa narrativa, que mascara a verdadeira situação, é amplamente divulgada, mas como ela se conecta com a persistente insegurança alimentar no país? Conforme dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a situação é mais complexa do que os números oficiais sugerem.
A Definição Permissiva de “Ocupado” e a Realidade do Trabalho Precário
O critério adotado pelo IBGE, seguindo diretrizes da Organização Internacional do Trabalho (OIT), para classificar alguém como “ocupado” é, no mínimo, permissivo. Basta uma única hora trabalhada na semana, mesmo sem remuneração direta, para que a pessoa seja considerada empregada. Isso significa que trabalhos precários, informais ou até mesmo trocas por alimentação ou moradia entram nessa contagem.
Na prática, uma cesta básica em troca de poucas horas de trabalho já pode ser suficiente para inflar artificialmente as estatísticas de ocupação. Essa metodologia, embora siga padrões internacionais, acaba sustentando uma narrativa de “pleno emprego” que não condiz com a qualidade e a dignidade do trabalho oferecido a milhões de brasileiros.
Os Desalentados e o Subemprego: Números que Não Contam Toda a História
Um grupo significativo de trabalhadores, os desalentados, simplesmente não entra no cálculo oficial do desemprego. Cerca de 2,3% da força de trabalho desiste de procurar emprego, seja por falta de oportunidades ou por desmotivação. Esses indivíduos, que poderiam estar produzindo e contribuindo, ficam à margem das estatísticas oficiais.
Além disso, a taxa de subutilização da força de trabalho alcança 13,5%, englobando milhões de brasileiros que vivem de “bicos” ou trabalhos esporádicos. Embora sejam contabilizados como ocupados, a ausência de jornada regular e remuneração adequada evidencia a precariedade de suas condições de trabalho.
A Informalidade Estrutural e a “Fome Moderada”: Um Duplo Estelionato Político
A informalidade atinge aproximadamente 40% dos trabalhadores brasileiros, um reflexo de problemas estruturais como baixa escolaridade, analfabetismo funcional e fragilidade da educação básica. A baixa produtividade, a alta carga tributária e a complexidade para formalizar negócios empurram muitos para ocupações precárias, que mascaram a falta de trabalho digno.
Essa realidade de empregos precários se soma à narrativa de superação da fome, que também é questionada pelos próprios dados do IBGE. A “insegurança alimentar moderada”, que afeta 13,5% da população, significa que mais de 41 milhões de brasileiros têm acesso severamente limitado a alimentos. Rotular essa condição como “moderada” não a torna aceitável, configurando um cenário de fome com graves consequências para o desenvolvimento infantil e para a sociedade como um todo.
Um Retrato Incômodo: Subnutrição, Fome e Empregos Precários
Subnutrição, fome – mesmo que disfarçada de “moderada” – e empregos precários não deveriam ser motivos de comemoração. Pelo contrário, são um retrato incômodo de fracasso social e um motivo de vergonha para qualquer sociedade que preze pela dignidade humana e pela justiça social. A disparidade entre os dados estatísticos celebrados e a realidade vivida por milhões de brasileiros expõe um claro estelionato político.
A persistência da insegurança alimentar, mesmo com a redução do desemprego, demonstra que as políticas públicas precisam ir além de indicadores superficiais. É fundamental focar na qualidade das vagas, na formalização do trabalho e, principalmente, em garantir que todos os brasileiros tenham acesso a uma alimentação adequada e digna, combatendo a fome em todas as suas formas.