PF não comprova crime de perseguição contra jornalista investigado por Moraes e aponta intenção de “imagem negativa” de Dino
A Polícia Federal (PF) não apresentou evidências concretas que comprovem o crime de perseguição contra o jornalista maranhense Luís Pablo, alvo de um inquérito iniciado pelo ministro Alexandre de Moraes. Inicialmente, a investigação se baseava em reportagens publicadas pelo jornalista no ano passado, que abordavam o uso de veículos oficiais por Flávio Dino, então governador do Maranhão e atual ministro.
A apuração policial, conforme revelado pelo jornal O Globo e obtido pela Gazeta do Povo, detalha que a PF identificou Luís Pablo recebendo fotos e informações de uma fonte sobre a movimentação de Flávio Dino e sua família. No entanto, a investigação não demonstrou que o jornalista tenha, de fato, seguido ou intimidado o ministro, atos essenciais para caracterizar o crime de perseguição, também conhecido como stalking.
Apesar da ausência de provas do crime de perseguição, o inquérito prossegue sob determinação de Alexandre de Moraes. A análise de celulares, notebook e pen drive apreendidos com Luís Pablo levou a PF a identificar o ex-secretário de governo Raimundo Cutrim, adversário político de Dino, como a fonte das informações divulgadas pelo jornalista. A investigação agora sugere que as reportagens teriam o “intuito de passar uma imagem negativa” de Flávio Dino.
Fonte das informações e objetivo das reportagens em foco
Em um dos relatórios da investigação, a PF aponta que mensagens de WhatsApp entre Luís Pablo e outra pessoa indicam que as matérias publicadas pelo jornalista tinham como objetivo criar uma “imagem negativa” sobre a atuação do Ministro Flávio Dino. O relatório descreve uma relação onde um advogado pareceu orientar e direcionar o jornalista sobre o conteúdo a ser publicado.
Luís Pablo foi alvo de busca e apreensão em março deste ano, suspeito de perseguição. A PF apresentou ao ministro cópias das reportagens sobre o uso de carros oficiais pelo ministro, questionando a regularidade administrativa da utilização dos veículos.
Busca e apreensão contra ex-secretário e advogado levanta debate sobre sigilo da fonte
Recentemente, a PF executou busca e apreensão contra Raimundo Cutrim e um advogado, após a identificação de Cutrim como a fonte das informações sobre Dino. A PF descobriu que o advogado depositou R$ 100 mil na conta de um terceiro para quitar parte da compra de um imóvel rural por Luís Pablo, no valor total de R$ 461 mil. Contudo, não foi apresentada prova de que este pagamento esteja diretamente ligado às reportagens sobre o uso dos carros oficiais.
A investigação também captou mensagens antigas, de junho de 2025, trocadas entre o advogado e o jornalista sobre a relação de Dino com o vice-governador do Maranhão. As reportagens sobre os carros foram publicadas no fim de novembro de 2023. A PF especula sobre a possibilidade de Luís Pablo receber dinheiro informalmente para publicar reportagens negativas contra Dino, mas o crime de perseguição não é diretamente associado a essa suposta conduta.
Defesas e STF em polêmica sobre liberdade de imprensa
Luís Pablo declarou que os R$ 100 mil foram um empréstimo para aquisição de um terreno, quitado em fevereiro deste ano, e que o empréstimo ocorreu antes mesmo de ele ter conhecimento sobre os carros de Flávio Dino. A defesa de Raimundo Cutrim considera a decisão de Moraes um “precedente extremamente perigoso e ilegal”, ferindo o sigilo da fonte e intimidando a imprensa.
O caso reacende o debate sobre a liberdade de imprensa e o sigilo da fonte no Supremo Tribunal Federal (STF). Ministros como Alexandre de Moraes e Flávio Dino defenderam a relativização do sigilo da fonte e a volta da exigência de diploma em jornalismo, posição que diverge do entendimento anterior do STF que derrubou essa exigência em 2009.