Cuba enfrenta a pior crise desde 1959, com racionamento severo, apagões e moeda desvalorizada, sob pressão dos EUA.
Em janeiro, o regime de Cuba declarou um “estado de guerra” diante da pressão crescente dos Estados Unidos. Essa medida, contudo, não impediu o agravamento da crise na ilha, marcada por cancelamentos de voos, apagões recordes e racionamento de combustível. A moeda local atingiu o patamar de 500 pesos cubanos por dólar americano, forçando a ditadura a adotar um tom mais conciliador em busca de “diálogo”.
A estratégia de resistência cubana, baseada na “Guerra de Todo o Povo” de Fidel Castro, que prevê a mobilização geral, encontra pouco eco nas ruas. A vida na ilha está paralisada, com restrições severas ao transporte público e suspensão de contratos de trabalho. A situação é um reflexo direto da “política de asfixia” americana.
A ameaça dos EUA de impor tarifas a países que fornecem petróleo a Cuba gerou um efeito cascata, afetando o turismo, um dos últimos pilares de sustentação do regime. O presidente americano, Donald Trump, expressou a expectativa de que a ditadura não sobreviva até o final do ano, intensificando a pressão sobre o setor energético cubano.
O colapso econômico e social em Cuba
Robert Huish, professor da Universidade de Dalhousie, no Canadá, descreveu a atual situação de Cuba como uma das piores catástrofes sociais e econômicas desde a revolução de 1959. Apesar da gravidade, Huish avalia em artigo no The Conversation que a crise inédita pode não ser suficiente para derrubar o regime de Miguel Díaz-Canel.
Desde os anos 1960, os EUA têm aplicado severas armas econômicas contra Cuba. A Lei Helms-Burton, por exemplo, não só impedia empresas americanas de negociarem com a ilha, mas também punia empresas estrangeiras que fizessem negócios com ambos os países. Mesmo sob essa pressão, o regime sobreviveu a crises anteriores.
Duas outras crises significativas na história de Cuba foram a Crise dos Mísseis de 1962, com o bloqueio naval americano, e o período pós-dissolução da União Soviética, que resultou em uma contração de 35% do PIB cubano. No entanto, a crise atual se diferencia pelo colapso generalizado de sistemas essenciais como energia, trabalho, saúde e alimentação.
O impacto da “política de asfixia” americana
O corte no fornecimento de combustível, intensificado pela captura de Nicolás Maduro, elevou drasticamente a crise. O petróleo é vital para o funcionamento de Cuba, desde o transporte público até as fábricas e fazendas. Havana consegue suprir apenas 40% de sua própria produção interna de energia.
O racionamento de alimentos básicos, como arroz e feijão, que já era comum, tornou-se ainda mais precário. Os alimentos mal estão disponíveis nos armazéns de distribuição, e os cubanos enfrentam apagões que chegam a 20 horas diárias, demonstrando a severidade da crise energética.
Aliados cautelosos: China e Rússia oferecem ajuda sob escrutínio
A China reafirmou seu apoio político a Cuba, mas evitou detalhes sobre a forma de assistência. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Lin Jian, declarou que Pequim “apoia firmemente Cuba na salvaguarda de sua soberania e segurança nacionais” e se opõe a “ações desumanas que privam o povo cubano de seu direito à subsistência”.
Recentemente, a China instou Washington a “pôr fim imediatamente ao bloqueio, às sanções e a todas as formas de medidas coercitivas contra Cuba”. Pequim enviou 90 mil toneladas de arroz e uma linha de “assistência financeira emergencial” de US$ 80 milhões, além de outros US$ 100 milhões em 2024.
A Rússia também sinalizou o envio de “ajuda humanitária”, incluindo suprimentos de petróleo, o que pode gerar atritos com os EUA. Moscou suspendeu voos para Cuba após turistas ficarem retidos devido à crise energética, sendo a Rússia a segunda maior fonte de turistas para a ilha. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, minimizou as tensões com os EUA, citando a ajuda a Cuba.