Relógio do Fim do Mundo marca 85 segundos para a meia-noite, o menor tempo da história
Nunca o planeta Terra esteve tão próximo da destruição total como agora. Essa é a avaliação dos cientistas responsáveis pelo Relógio do Fim do Mundo, que em sua atualização mais recente, divulgada em janeiro, marcou apenas 85 segundos para a meia-noite, a marca mais próxima do Juízo Final já registrada.
No ano anterior, o relógio registrava 89 segundos para o Apocalipse. O minuto e 29 segundos era, até então, o menor tempo desde 1947, quando a análise foi publicada pela primeira vez pelo grupo de cientistas atômicos americanos. A iniciativa visava alertar para o risco crescente de uma catástrofe mundial provocada pela ameaça nuclear.
Com o passar do tempo, a contagem simbólica do relógio passou a incluir preocupações mais modernas da humanidade, como ameaças relacionadas ao clima, aquecimento global, questões de biotecnologia e o uso de armamentos químicos, além de pandemias. Conforme informação divulgada pelo Boletim dos Cientistas Atômicos, organização sem fins lucrativos com sede em Chicago, a diminuição de 4 segundos para a meia-noite se deu pela postura cada vez mais agressiva das potências nucleares, incluindo Rússia, China e Estados Unidos, e pelo enfraquecimento dos mecanismos internacionais de controle.
Tensões nucleares e falha de liderança global impulsionam o relógio
A especialista em política nuclear Alexandra Bell, presidente e CEO da organização, declarou que o cenário atual evidencia uma falha de liderança em escala internacional. Segundo ela, a inclinação ao “neoimperialismo” e a práticas de governança com traços autoritários estão aproximando simbolicamente o relógio da meia-noite.
Bell ressaltou que, sob a perspectiva nuclear, o risco de emprego de armas atômicas permanece “insustentavelmente e inaceitavelmente alto”. A dirigente mencionou a guerra da Rússia na Ucrânia, os bombardeios conduzidos por Estados Unidos e Israel contra o Irã, as tensões na fronteira entre Índia e Paquistão e um suposto aumento das tensões no Hemisfério Ocidental.
Fim do tratado New START agrava a instabilidade nuclear
Mal foi atualizado, o Relógio do Fim do Mundo já parece defasado. Em 5 de fevereiro expirou o tratado nuclear New START, o acordo bilateral que limitava arsenais estratégicos entre os Estados Unidos e a Rússia. O New START, em vigor desde 2011, estabelecia limites sobre o número de ogivas e sistemas de lançamento, além de garantir mecanismos de verificação e transparência.
Com o fim do pacto, essas restrições deixaram de ser obrigatórias, abrindo espaço para que ambas as potências adotem posturas mais flexíveis e potencialmente ampliem seus arsenais. Autoridades russas afirmam que continuarão a agir “responsavelmente” em matéria nuclear, apesar do término do tratado, e chegaram a propor uma extensão voluntária de um ano ao New START, proposta não formalmente aceita pelos Estados Unidos.
Enquanto isso, Washington tem defendido a negociação de um novo acordo que inclua também a China, cujo arsenal nuclear está em rápida expansão. Pequim, no entanto, tem se mostrado relutante em entrar em negociações multilaterais nesse formato, aumentando a complexidade da segurança global.
Críticas ao modelo do Relógio do Fim do Mundo
Ao posicionar simbolicamente a humanidade a “segundos da meia-noite”, a iniciativa dos cientistas americanos pretende traduzir ameaças complexas em uma imagem de fácil compreensão. A intenção é louvável, mas o mecanismo é alvo de críticas recorrentes, tanto metodológicas quanto históricas.
Um dos principais questionamentos diz respeito ao seu caráter subjetivo. A decisão é tomada por um grupo restrito de especialistas, o que leva críticos a argumentar que o relógio reflete avaliações políticas e percepções conjunturais, mais do que métricas objetivas de risco. Há também ressalvas sobre inconsistências históricas, como o fato de que, em momentos de tensão extrema da Guerra Fria, como a Crise dos Mísseis de Cuba em 1962, o relógio não estava tão próximo da meia-noite quanto em anos recentes.
Outro ponto controverso é a ampliação do escopo. Originalmente focado na ameaça nuclear, o relógio passou a incorporar mudanças climáticas, desinformação e tecnologias emergentes. Embora relevantes, esses temas têm naturezas distintas e horizontes temporais variados, o que pode diluir o conceito original da iniciativa. Críticos afirmam que o modelo binário da “meia-noite” simplifica excessivamente dinâmicas geopolíticas complexas e pode gerar fadiga no público ou alimentar uma percepção fatalista, em vez de estimular debate técnico qualificado.