Servidor da Abin, Glauber Mendonça, que comanda canal popular no YouTube com quase 3,3 milhões de inscritos, está sob investigação interna. O processo administrativo disciplinar (PAD) apura a conduta do agente enquanto ele se encontrava afastado por licença médica. A polêmica ganhou destaque após o vazamento de informações sobre o procedimento, levantando questões sobre sigilo funcional e a atuação de agentes públicos em plataformas digitais.
O agente, que possui o canal “Fala Glauber” no YouTube desde 2021, posta vídeos sobre concursos na segurança pública, entrevistas com personalidades políticas e críticas à área. Seu conteúdo tem alcance expressivo, com vídeos ultrapassando milhões de visualizações, como a entrevista com um suposto ex-integrante do PCC e um relato de policial em favela.
A investigação da Abin, conforme noticiado pelo G1, concentra-se na manutenção da atividade do canal durante a licença médica, período em que o servidor continua recebendo salário. As acusações incluem o não exercício com zelo e dedicação das atribuições do cargo, além de atividades incompatíveis com a função e o horário de trabalho.
Vazamento e Defesa do Agente: Uma “Caçada Coordenada”
Em uma live transmitida no início de fevereiro, Glauber Mendonça classificou o vazamento de informações como uma “caçada coordenada” contra canais especializados na temática policial. Ele afirmou ter mantido sua identidade funcional em sigilo absoluto por quatro anos, protegendo a posição institucional enquanto conciliava as gravações do canal em horários de folga ou durante a madrugada. Mendonça alega que sua licença médica tem caráter psiquiátrico e foi atestada por perícias, tendo sofrido também uma lesão ortopédica grave no joelho.
Ele argumenta que manter o canal ativo durante o repouso contribui para sua saúde mental e que a produção de conteúdo nunca conflitou com suas obrigações funcionais, lembrando que o cargo de oficial técnico de inteligência não exige dedicação exclusiva, diferentemente dos cargos de Oficial de Inteligência e Agente de Inteligência, conforme a própria Abin confirmou por e-mail. A agência ressaltou que para estes últimos há impedimento de outra atividade remunerada, salvo exceções com autorização específica.
Ação do MPF e Críticas à Segurança Pública
Paralelamente à investigação interna da Abin, o Ministério Público Federal no Rio de Janeiro moveu uma ação contra Mendonça em abril de 2024, por suposto discurso de ódio e incitação à violência policial. O agente rebateu as acusações, classificando-as como uma “narrativa utilizada pela imprensa e pelo sistema para atacar sua imagem pessoal”. Ele defende que suas críticas, por vezes consideradas excessivas, são na verdade um apontamento da falência da Segurança Pública e do domínio de facções criminosas, e que não recuará de sua missão de “constranger político vagabundo”.
Mendonça citou como exemplo a expulsão de famílias de suas casas no Ceará por uma facção criminosa, criticando a atuação das forças de segurança na ocasião. Ele reiterou que não possui pretensões políticas e que suas análises sobre segurança pública são fundamentadas em sua experiência técnica, não em interesses partidários. O servidor negou ser um “agente duplo” ou integrar um projeto de comunicação governamental, afirmando que seu canal é uma iniciativa independente.
Abin Mantém Sigilo e Agente Cobra Identificação de Vazador
Em resposta à imprensa, a Abin informou que não fornece informações específicas sobre procedimentos correcionais em curso, pois os processos disciplinares tramitam sob caráter sigiloso, conforme a legislação vigente e orientações da Controladoria-Geral da União, visando a proteção da intimidade, imagem e direitos das pessoas envolvidas. A reportagem buscou contato com o Ministério Público Federal e a União dos Profissionais de Inteligência de Estado da Abin (Intelis), mas não obteve resposta.
Glauber Mendonça defende uma punição severa para quem expõe dados sensíveis e exige a identificação do servidor responsável pelo vazamento das informações internas, classificando o ato como uma “covardia” que compromete ativos estratégicos do Estado e pode prejudicar a confiança de agências estrangeiras no Brasil. O agente ressaltou que o cargo de policial penal federal, que ocupou por quase uma década antes de ingressar na Abin em 2021, serviu de base para o conteúdo inicial de seu canal, voltado para concurseiros.