A recente escalada de tensões no Oriente Médio, envolvendo o Irã, Estados Unidos e Israel, trouxe à tona as profundas divergências entre os prováveis candidatos à Presidência em 2026: Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). As reações distintas ao conflito e as posturas históricas de ambos os lados indicam que a política externa se tornará um palco crucial no debate eleitoral.
Enquanto o governo brasileiro, sob a liderança de Lula, condenou os ataques e defendeu uma solução diplomática, Flávio Bolsonaro e seus aliados alinharam-se ao eixo Washington-Tel Aviv, enfatizando o combate ao terrorismo e a defesa dos valores ocidentais. Essa polarização ideológica, segundo especialistas, reflete as bases de suas plataformas políticas e pode influenciar diretamente o eleitorado brasileiro.
A posição do governo brasileiro, que rejeitou a ação sem aval da ONU, contrasta com a visão de Flávio Bolsonaro, que classificou a nota oficial como “inaceitável”. Especialistas apontam que essa divergência expõe uma clara opção do campo petista por uma política externa que abandona a neutralidade, enquanto a direita busca um alinhamento com democracias ocidentais. Conforme informações divulgadas pela Gazeta do Povo, essa dinâmica já molda as estratégias internacionais de ambos os pré-candidatos, com Flávio buscando fortalecer laços com a direita global e Lula focando em agendas domésticas e acordos comerciais.
Flávio Bolsonaro intensifica agenda internacional em busca de alinhamento com a direita global
Flávio Bolsonaro tem percorrido o mundo em busca de interlocução com a direita global, visitando Estados Unidos, Oriente Médio e Europa. Sua estratégia visa construir contrapontos à diplomacia do governo atual e **reafirmar valores ocidentais**, como segurança e identidade. Essa movimentação busca projetar a imagem de um candidato com **trânsito internacional e conexões ideológicas claras**, dialogando com sua base e produzindo ativos simbólicos para a campanha.
O senador reforçou o alinhamento com o governo israelense, afirmando compromisso “inegociável” com o povo judeu durante visita a Israel. Posteriormente, passou pelo Bahrein, Emirados Árabes Unidos, França e Estados Unidos, onde articulou com figuras próximas a Donald Trump. Na América Latina, mantém relacionamento com Javier Milei, da Argentina, e José Antonio Kast, do Chile.
Essa estratégia busca **demarcar com nitidez as diferenças programáticas** entre seu grupo e o governo, transformando o tema internacional em um valioso ativo de campanha, conforme aponta o cientista político Elton Gomes, da UFPI. A intenção é apresentar-se como uma alternativa viável da direita, com conexões internacionais sólidas.
Lula adota pragmatismo e foca em acordos comerciais, mas enfrenta desafios diplomáticos
Em contraste, Luiz Inácio Lula da Silva tem adotado uma agenda mais seletiva e pragmática, priorizando acordos comerciais, como as recentes viagens para a Índia e Coreia do Sul, e o esforço para selar o acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia. O presidente busca manter canais abertos com Washington, apostando em um encontro com Donald Trump para destravar pautas bilaterais, com foco na exploração de minerais raros no Brasil.
No entanto, Lula enfrenta desafios diplomáticos. Sua declaração comparando ações militares israelenses em Gaza ao Holocausto levou à sua declaração de persona non grata por Israel, deteriorando as relações bilaterais. Essa postura, segundo Márcio Coimbra, presidente do Instituto Monitor da Democracia, contribui para um discurso “anacrônico” e uma “ambiguidade moral diante de autocracias”, prejudicando sua imagem como estadista global.
O governo brasileiro rejeita a ação militar sem aval da ONU, defendendo a solução diplomática, ao passo que a direita avalia como positivo o abalo da teocracia iraniana. Essa divergência reflete a **diplomacia de princípios jurídicos de Lula versus a diplomacia de identidade ideológica de Flávio**, como aponta Coimbra.
Política externa: ativo para a direita e desafio para o governo Lula
A internacionalização da campanha eleitoral de 2026 reflete a fragmentação global e a opção do governo Lula por uma suposta neutralidade, que, segundo Márcio Coimbra, levou ao distanciamento do país das democracias liberais. A retórica do “Sul Global” exercida por Lula virou um passivo diplomático e econômico, levando o Palácio do Planalto a dar maior atenção à agenda doméstica.
Para Coimbra, uma aproximação maior de Flávio e da direita brasileira com a Casa Branca pode servir como estratégia de legitimação, mas cercada de riscos, como o protecionismo do “America First”. O desafio da direita será evitar a imagem de “submissão”, o que pode ser explorado pela campanha petista.
O professor Daniel Silva, da USP, ressalta que o Brasil, como uma das 10 maiores economias do mundo, atrai atenção de governos e investidores. A disputa presidencial será observada como decisiva para os rumos da segunda maior democracia do continente. A capacidade de **traduzir a geopolítica em benefícios concretos ao cidadão** será fundamental para a vitória eleitoral.