Lula busca trégua com Congresso e Alcolumbre para evitar travamento de pautas estratégicas
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) iniciou um movimento de acomodação política no Congresso. O objetivo é reduzir a crise com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), após a derrota na indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF). A reaproximação ocorre em meio ao temor de que o desgaste entre Executivo e Senado comprometa votações estratégicas do governo.
Entre as pautas em risco estão a PEC da Segurança Pública, a PEC 6×1 e projetos de área econômica. Líderes governistas admitem que a sessão do Congresso da semana passada, que permitiu a derrubada de vetos presidenciais na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), foi um dos primeiros gestos concretos de distensão entre Lula e Alcolumbre.
Com apoio da própria base governista, parlamentares rejeitaram vetos do presidente e flexibilizaram regras eleitorais para transferências de recursos e benefícios públicos. Essa medida, vista como uma concessão a Alcolumbre e ao Centrão, visa ampliar o apoio de prefeitos nas eleições municipais. Conforme informação divulgada pelas fontes, o governo decidiu flexibilizar a posição em uma pauta considerada prioritária para o presidente do Senado como forma de evitar o aprofundamento da crise institucional.
Derrubada de vetos na LDO: um sinal de distensão
A derrubada de vetos presidenciais na LDO foi um dos primeiros gestos concretos de distensão entre Lula e Alcolumbre. A medida flexibilizou regras eleitorais, permitindo transferências de recursos e benefícios públicos em períodos pré-eleitorais. Isso pode ampliar o apoio de prefeitos e aliados regionais nas campanhas deste ano.
A legislação em vigor proíbe, nos três meses que antecedem as eleições, a doação de bens, valores ou benefícios a estados e municípios para evitar o uso político da máquina pública. Ao derrubar o veto de Lula, deputados e senadores restabeleceram a possibilidade dessas transferências em determinadas situações previstas na LDO.
Davi Alcolumbre comemorou a votação, afirmando que o Congresso está trabalhando para melhorar a qualidade de vida das pessoas e fortalecer a República. No entanto, consultorias técnicas da Câmara e do Senado alertaram que a flexibilização pode aumentar o risco de uso indireto da estrutura pública com finalidade eleitoral, especialmente em municípios dependentes de verbas federais.
Crise com Alcolumbre pode travar pautas importantes no Senado
A crise aberta após a rejeição da indicação de Jorge Messias ao STF preocupa o Palácio do Planalto não apenas pelo desgaste político, mas também pelo risco de paralisação da agenda do governo no Senado. Matérias estratégicas dependem diretamente de decisões de Alcolumbre para avançar.
Entre os projetos travados estão a PEC da Segurança Pública, considerada uma das principais vitrines políticas do governo, e o marco legal para exploração de minerais críticos e terras raras. Até o momento, nenhuma das propostas teve relator definido ou despacho formal de Alcolumbre.
Lula chegou a apelar publicamente pela votação da PEC da Segurança, prometendo anunciar a criação do Ministério da Segurança Pública até 15 dias após a aprovação da proposta. Mesmo assim, o presidente da CCJ, Otto Alencar (PSD-BA), cobrou o despacho da PEC por parte de Alcolumbre, sem sucesso. Ministros e parlamentares governistas intensificaram conversas reservadas com o presidente do Senado para reconstruir pontes.
Desgaste político e a dificuldade de avançar com pautas prioritárias
Integrantes do PT avaliam que o desgaste na relação entre Lula e Alcolumbre elevou o custo político das negociações e reduziu a margem do governo para avançar com pautas prioritárias. A aprovação da PEC que acaba com a escala de trabalho 6×1, por exemplo, está avançando na Câmara, mas dependerá de apoio no Senado.
Para a cientista política Letícia Mendes, especialista em Legislativo da BMJ Consultores Associados, o episódio da rejeição de Messias deixou uma fissura na relação entre o Planalto e o comando do Senado. Ela afirma que o governo precisará reconstruir um ambiente mínimo de confiança para conseguir avançar em votações importantes.
Uma pesquisa do Datafolha, divulgada em maio, mostrou que 70% dos brasileiros enxergam a relação entre Lula e o Congresso mais como confronto do que colaboração. A pesquisa foi realizada presencialmente entre os dias 12 e 13 de maio de 2026, com 2.004 entrevistados. O levantamento tem margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%.
Lula não descarta nova indicação de Jorge Messias ao STF, mas esbarra em regra
Apesar da derrota no Senado, o presidente Lula ainda não abandonou a possibilidade de indicar Jorge Messias para o STF novamente. Essa tentativa, contudo, depende de uma recomposição com Alcolumbre.
Parlamentares do PT afirmam que Lula considera o episódio uma derrota política relevante, mas resiste à ideia de encerrar o projeto. Uma regra interna do Senado, o Ato da Mesa Diretora nº 1, de 2010, estabelece que autoridades rejeitadas pelo Senado não podem ter o nome reapreciado na mesma sessão legislativa. Isso significa que uma nova análise da indicação de Messias ficaria, em tese, para 2027.
O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) elogiou o nome de Messias para a vaga no Supremo, destacando sua qualificação técnica e experiência. Para o analista político Victor Missiato, a rejeição de Jorge Messias expôs mudanças mais profundas no equilíbrio de forças em Brasília e um possível abalo sistêmico na política brasileira.