O debate sobre Machado de Assis versus Dostoiévski divide opiniões e revela a necessidade de uma discussão literária mais profunda no Brasil.
Uma declaração inflamada nas redes sociais sobre a superioridade de Fiódor Dostoiévski sobre toda a literatura brasileira reacendeu um debate antigo e complexo: quem foi melhor, o mestre russo ou o gênio brasileiro Machado de Assis? A polêmica, que rapidamente viralizou, expôs a superficialidade com que muitas vezes se discutem grandes nomes das letras.
Enquanto a velocidade das redes sociais premia o posicionamento rápido, a análise aprofundada sobre as obras e o contexto de Machado de Assis e Dostoiévski exige uma abordagem mais calma e criteriosa. Este artigo busca aprofundar essa comparação, explorando as visões de críticos renomados e a realidade da recepção de ambos os autores globalmente.
A discussão sobre a grandeza literária de Machado de Assis e Dostoiévski, longe de ser uma simples disputa de popularidade, envolve a compreensão de suas distintas abordagens sobre a alma humana, a estrutura de suas narrativas e, crucialmente, os fatores que determinam sua projeção internacional. Conforme analisado por especialistas, a comparação entre eles é mais complexa do que aparenta, sendo alimentada por infraestrutura de divulgação e contexto histórico.
Machado e Dostoiévski: Exploradores da Alma Humana por Caminhos Distintos
Tanto Machado de Assis quanto Fiódor Dostoiévski são unanimemente reconhecidos por sua capacidade ímpar de mergulhar nas profundezas da psique humana. No entanto, seus métodos e estilos divergem significativamente, como apontam críticos literários. Otto Maria Carpeaux, renomado crítico, descreveu a psicologia machadiana como alinhada à de La Rochefoucauld, marcada por uma desconfiança intrínseca dos motivos humanos e um ceticismo niilista.
Em contraste, Carpeaux via em Dostoiévski a exploração de “paisagens da alma” e uma “psicologia requintada”. Harold Bloom, outro peso-pesado da crítica literária, classificou Machado como um “gênio da ironia” e Dostoiévski como um mestre da “dramatização de caráter e personalidade”.
A forma como cada autor escava o ser humano é contrastante. Machado utiliza um “bisturi irônico”, com urbanidade reservada e a frieza analítica de quem disseca a mortalidade sem perder a compostura. Dostoiévski, por outro lado, opera através da “convulsão”, com personagens que gritam, confessam e se contradizem, arrastando o leitor para o abismo de suas angústias.
A Visão do Tradutor: Oleg Almeida e a Incomparabilidade de Estilos
Oleg Almeida, tradutor de grandes nomes da literatura russa para o português, como Dostoiévski e Tolstói, oferece uma perspectiva valiosa. Ele descreve a tentação de verter o russo para um “bonito e correto português de Machado de Assis”, mas ressalta que isso implicaria na perda da “aspereza inimitável” do estilo de Dostoiévski, que é “truncado, caótico, enervado e enervante”.
Almeida, em entrevista à Gazeta do Povo, considera que, como representantes da vertente realista, ambos os autores “são parecidos em vários sentidos”, compartilhando ironia e uma dimensão fantástica em suas obras. Ele afirma categoricamente: “Pessoalmente, não percebo nenhum quesito estético ou técnico no qual um deles seja pior do que o outro.”
Contudo, Almeida faz uma distinção clara: “Como estilista da língua portuguesa, Machado é bem melhor do que Dostoiévski em sua qualidade de estilista russo.” Ele aponta que os textos originais de Dostoiévski podem ser “muito chatos de ler, às vezes intragáveis”, o que explica as traduções adaptativas que buscam não afastar o público. O Dostoiévski que chega ao leitor ocidental, portanto, já passou por um filtro.
A Infraestrutura da Fama: Dostoiévski Global, Machado em Construção
Uma assimetria notável, e frequentemente negligenciada, reside na recepção global de ambos os autores. Dostoiévski é incomparavelmente mais publicado, traduzido e estudado em escala mundial do que Machado de Assis. Essa disparidade, contudo, não é uma questão de mérito intrínseco, mas sim de “infraestrutura”, como aponta o texto original.
Desde o século XIX, Dostoiévski influenciou correntes filosóficas como o existencialismo francês e pensadores alemães, além de ter inspirado o cinema e o teatro em diversas partes do mundo. Existem sociedades dedicadas a seus estudos em países como o Japão, e sua obra é objeto de pesquisa acadêmica internacional.
Machado de Assis, por outro lado, começou a ser traduzido para o inglês apenas nos anos 1950. Sua entrada no cânone mundial foi, e ainda é, filtrada, com ênfase em seus romances, deixando de lado seu teatro, poesia e crônicas. O tradutor Oleg Almeida relata a dificuldade em publicar obras de Machado no espaço russófono, onde o autor brasileiro é amplamente desconhecido para além de Jorge Amado e Paulo Coelho.
Almeida acredita que, com o mesmo “apoio acadêmico e, sobretudo, midiático” de Dostoiévski, Machado de Assis estaria no mesmo patamar global. A diferença entre fama e grandeza, nesse contexto, pode ser apenas uma questão de “tradução e circunstância”.
O Debate que Revela o Brasil Literário
A comparação que viralizou nas redes sociais, focada em um ranking simplista, difere da análise aprofundada de críticos como Carpeaux e Bloom. Eles não buscaram hierarquizar os autores, mas sim situá-los em seus contextos e tradições, reconhecendo a genialidade de ambos sem a necessidade de rebaixar um para exaltar outro.
O debate inflamado no Brasil, impulsionado por uma provocação nas redes, reflete uma “insatisfação com o rumo da literatura brasileira contemporânea” e uma crise identitária. Contudo, a solução para essa questão pode não residir em comparar autores nacionais com gigantes estrangeiros, mas sim em uma leitura mais atenta e crítica de ambas as literaturas.
A sugestão de Oleg Almeida para o Brasil é clara: “Divulgar seus melhores artistas lá fora em vez de compará-los aos astros estrangeiros.” E, para os leitores, o conselho é ainda mais direto: “Leiam Balzac, Dostoiévski, Machado de Assis e outros autores sérios.” A reflexão independente, baseada na leitura e no estudo, é o caminho para formar opiniões conscientes, longe do ruído das comparações superficiais.