A fórmula petista de reeleição enfrenta novos desafios em 2026
A tradicional estratégia do Partido dos Trabalhadores para garantir a permanência no poder, baseada na combinação de benefícios sociais, expansão do crédito, desonerações e valorização do salário mínimo, parece dar sinais de esgotamento. Essa máquina de reeleição, responsável por cinco vitórias em seis eleições presidenciais desde 2002, é questionada por especialistas quanto à sua eficácia atual.
Pesquisas recentes indicam uma queda na popularidade do presidente Lula e altos índices de rejeição, mesmo com indicadores econômicos sustentados por expansão fiscal e incentivos ao consumo. A pesquisa BTG/Nexus, realizada entre 22 e 24 de maio de 2026, aponta um cenário eleitoral apertado, com Lula a 47% das intenções de voto em um eventual segundo turno contra 43% de Flávio Bolsonaro, e uma rejeição de 47% ao petista.
Especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo avaliam que a fórmula, que já garantiu ao PT 20 dos últimos 24 anos no governo, pode não ter mais o mesmo poder de convencimento. A dificuldade em apresentar um novo horizonte de desenvolvimento e mobilidade social, aliada a um Brasil em constante mudança, sugere que o modelo pode estar perdendo sua força.
A ‘perspectiva pecuniária da democracia’ em xeque
O cientista político Leonardo Barreto, da Think Policy, descreve a lógica petista como uma “perspectiva pecuniária da democracia”, focada na distribuição de recursos públicos e benefícios para fidelizar eleitores. Essa máquina de reeleição, segundo ele, constrói clientelas políticas permanentes, abrangendo desde empresários a motoristas de aplicativo.
No entanto, Barreto aponta que essa fórmula perdeu sua capacidade de oferecer uma perspectiva de futuro. Ele define o momento atual do PT como uma “retropia”, uma espécie de “utopia de retrovisor”, onde a promessa é de devolver uma felicidade passada. “O que o partido diz é: você já foi feliz e nós vamos devolver essa felicidade”, explica.
O Brasil mudou, e a sociedade também
Alexandre Manoel, da Global Intelligence and Analytics, argumenta que o Brasil passou por transformações profundas em seus aspectos econômico, social, institucional e cultural. A sociedade está mais descentralizada e conectada, com a internet e as redes sociais pulverizando a informação e dificultando a construção de hegemonias políticas duradouras.
A expansão da economia de plataformas, como Uber e iFood, criou novas dinâmicas de trabalho autônomo e empreendedorismo, uma realidade que era incipiente nos primeiros mandatos de Lula. Além disso, uma mudança geracional significa que uma parcela significativa do eleitorado atual não vivenciou o otimismo e a ascensão emocional do início dos anos 2000.
A influência do crescimento evangélico, que representa cerca de 27% da população, também alterou o cenário, com valores religiosos e morais ganhando peso nas decisões políticas do eleitorado.
Lula 3 dobra a aposta em medidas populares
Diante desse cenário, o governo Lula tem intensificado a aposta em medidas de forte apelo popular, buscando reverter a perda de popularidade. Relatórios financeiros indicam uma nova rodada de benefícios somando R$ 140 bilhões, incluindo programas como o “Desenrola 2.0”, facilidades para crédito consignado e incentivos para aquisição de caminhões.
Medidas como a extinção da “taxa das blusinhas” e a subvenção no preço da gasolina, com custos projetados bilionários, também fazem parte dessa estratégia. O programa Move Aplicativos, que oferece crédito para taxistas e motoristas de aplicativo financiarem veículos novos, é a iniciativa mais recente.
Barreto compara a situação a “insistir em um antibiótico ao qual a doença vai ficando resistente. Em vez de trocar o remédio, o governo aumenta a dose”, demonstrando a aposta em um modelo que já mostra sinais de saturação.
O fantasma de 2014 e a rigidez fiscal
O economista Samuel Pessoa, do FGV Ibre, alerta que a estratégia atual revive o modelo dos anos finais do governo Dilma Rousseff, com subsídios e expansão fiscal que levaram a uma recessão histórica. A falta de ganhos consistentes de produtividade é vista como a principal fragilidade estrutural do modelo econômico associado ao lulopetismo.
Pessoa destaca o avanço da dívida pública, que subiu de 71,2% do PIB em 2022 para 79,2% do PIB atualmente, e a rigidez crescente das contas públicas. Ele estima que novas regras de reajustes automáticos podem aumentar os gastos federais em mais de R$ 1 trilhão entre 2027 e 2034.
O economista adverte que promessas de expansão de gastos e redução de impostos sem fontes claras de financiamento podem levar o país a reviver um cenário semelhante a 2014, quando medidas fiscais foram adiadas durante a campanha eleitoral, culminando em um “estelionato eleitoral” após a eleição de Dilma.
A falta de autocrítica do PT sobre a crise do governo Dilma, focando o erro na condução política e não na fórmula econômica, agrava a situação. A visão de que a responsabilidade fiscal foi um equívoco assusta, pois foi justamente essa política que deu estabilidade e sustentação ao governo anterior.
Oposição ainda busca um “sonho” para 2026
Apesar do desgaste do modelo petista, a oposição ainda não conseguiu preencher o vazio de expectativa, segundo Barreto. Derrotar o PT, para ele, exige mais do que rejeição ao lulismo, é preciso “vender um sonho”.
O senador Flávio Bolsonaro, visto como o adversário com maiores chances, ainda depende do capital político de Jair Bolsonaro e não construiu uma narrativa própria de futuro. A busca por uma liderança que transmita estabilidade, moderação e esperança prática de mobilidade social é fundamental.
Alexandre Manoel aponta que, em um cenário de hiperpolarização, conquistar mentes e corações eleitores se tornou um desafio complexo. A dificuldade do PT em reverter a impopularidade reflete uma transformação na democracia contemporânea, onde a mobilização de nichos é eficiente, mas a construção de uma maioria ampla e coesa é cada vez mais difícil.
Metodologia da pesquisa Nexus/BTG Pactual: 2.045 entrevistados pelo instituto Nexus entre os dias 22 e 24 de maio de 2026. A pesquisa foi contratada pelo Banco BTG Pactual. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 2 pontos percentuais. Registro no TSE n° BR-04193/2026.