A Revolução Silenciosa do Liberalismo: Uma Análise Profunda dos Seus Pressupostos Metafísicos
Nem sempre os triunfos intelectuais são barulhentos. Alguns, pela sua discrição, passam quase despercebidos. É o caso da consolidação da cosmovisão liberal, tema central do livro “A Metafísica da Revolução: Pressupostos do Liberalismo”, de Daniel Scherer. A obra explora como o liberalismo, ao se apresentar como superação de toda metafísica, tornou-se hegemônico e, em grande parte, incontestável, até mesmo por seus críticos.
Para aqueles que reconhecem o papel histórico do liberalismo na oposição a impulsos coletivistas e totalitários, os argumentos de Scherer podem soar surpreendentes. Contudo, o autor propõe um deslocamento de perspectiva, analisando a corrente filosófica sob uma luz mais ampla e, consequentemente, mais complexa.
Scherer não nega as virtudes históricas do liberalismo, mas o reinscreve em uma genealogia filosófica e teológica mais profunda. Nessa visão, liberalismo e socialismo emergem como variantes de uma mesma matriz espiritual, herdeira do Renascimento e, sobretudo, do Iluminismo: a metafísica da imanência. Essa análise é apresentada em “A Metafísica da Revolução: Pressupostos do Liberalismo”, conforme divulgado em análises sobre a obra.
O Liberalismo Como Doutrina Não Neutra
O livro parte da provocativa afirmação de que “o liberalismo pressupõe e impõe certa metafísica”. Scherer demonstra que, ao contrário do senso comum e das alegações de seus adeptos, o liberalismo não é uma doutrina neutra. Ele não se limita a estabelecer regras procedimentais para a convivência, mas implica, desde suas premissas, concepções específicas sobre o homem, o conhecimento e a realidade.
A pretensão de neutralidade axiológica, nesse contexto, funciona mais como um elemento constitutivo da autocompreensão liberal do que uma descrição fiel de seu funcionamento. Essa característica, ao ocultar seus pressupostos, dificulta a crítica efetiva ao liberalismo.
A Relação Teológica Oculta do Liberalismo
A obra de Scherer aprofunda a relação do liberalismo com a religião, especialmente com o catolicismo. A separação entre Igreja e Estado, frequentemente vista como um expediente técnico, é reinterpretada como uma atitude teológica mais profunda. Scherer, com apoio em Ryszard Legutko, ressalta que a hostilidade ao catolicismo remonta aos primórdios do liberalismo, com pensadores majoritariamente protestantes vendo no Papado um símbolo de autoridade a ser derrubada.
A alegada ignorância ou incerteza sobre a verdade religiosa, usada para estruturar uma ordem política que exclui essa verdade da esfera pública, constitui, na prática, um juízo negativo sobre ela. Essa postura é um pilar fundamental da metafísica liberal.
A Construção do Indivíduo Liberal e Seus Paradoxos
A crítica avança para um plano antropológico e metafísico, concentrando-se na concepção de homem que o liberalismo pressupõe. O indivíduo liberal, titular originário de direitos, autônomo e desvinculado de ordens preexistentes, é apresentado como uma construção abstrata, afinada com as ficções contratualistas iluministas. Essa visão ignora a necessidade humana de enraizamento, como apontado por Simone Weil.
O indivíduo liberal, ao ser concebido como anterior e independente de instituições como família e comunidade, contribui para a erosão dessas instâncias. Isso resulta em indivíduos cada vez mais isolados, preparando o terreno para um crescimento desmesurado do poder estatal, como sugere Patrick Deneen.
Esse paradoxo, onde a busca pela liberdade individual leva a uma maior dependência do Estado, é um dos pontos centrais da análise de Scherer. A obra “A Metafísica da Revolução: Pressupostos do Liberalismo” detalha como essa dinâmica se desenrola.
O Legado da Metafísica da Imanência
A filosofia moderna, ao rejeitar a concepção do ser como ato participado, inaugurou um movimento que culmina na absorção da realidade pela razão humana. Essa transformação, evidente em pensadores como Descartes, Kant e Hegel, leva ao subjetivismo moderno, onde a verdade é em parte constituída, não apenas descoberta.
No plano ético, isso implica a dissolução de padrões objetivos de bem, substituídos por um campo de vontades em disputa. O liberalismo, como expressão política dessa mudança metafísica, trata a satisfação de desejos como um valor em si mesmo, renunciando à ideia de um bem objetivo cognoscível.
A obra conclui que o liberalismo não é metafisicamente neutro. Seu apelo à pluralidade, embora bem-intencionado, serve para impor sua própria teoria abrangente do bem. A defesa da indiferença da razão pública é, em si, resultado de uma doutrina compreensiva com alcance metafísico e religioso.
“Em suma: o liberalismo implica certa metafísica. E para criticá-lo é preciso opor-lhe outra”, finaliza Scherer. O mérito do livro reside em recolocar a questão da verdade sobre o homem, o bem e a ordem do mundo, forçando o reconhecimento de que nenhuma ordem política pode prescindir de respostas a essas perguntas fundamentais, mesmo que a resposta liberal se apresente sob a forma de silêncio.