Investigações sobre fraudes no INSS e ligações com Lulinha sofrem atrasos críticos na Polícia Federal devido à escassez de agentes e mudanças administrativas.
A Operação Sem Desconto, que visa desvendar um esquema bilionário de descontos fraudulentos em benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), enfrenta sérios obstáculos que ameaçam o andamento das apurações. Um significativo déficit de pessoal na Polícia Federal (PF) e alterações na equipe responsável pelo caso estão gerando preocupação e podem atrasar de forma expressiva a investigação.
Entre os pontos mais sensíveis da investigação estão as supostas ligações entre Antônio Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, e Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A lentidão no avanço das apurações levanta questionamentos sobre a eficiência e a imparcialidade do processo investigativo.
A Polícia Federal já comunicou ao ministro relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, que as investigações estão atrasadas e necessitarão de prorrogação. A situação é agravada pela falta de recursos humanos, o que impacta diretamente a capacidade de análise do vasto material coletado. Conforme apurado, a corporação conta com cerca de dez servidores dedicados ao caso, quando a estimativa interna aponta a necessidade de pelo menos quatro vezes mais policiais para sustentar o ritmo de trabalho exigido. A informação foi divulgada pela mídia.
Déficit de Efetivo e Pedido de Prorrogação
A Polícia Federal informou ao ministro relator do caso no STF, André Mendonça, que as investigações estão atrasadas e devem ser prorrogadas significativamente. A corporação conta atualmente com apenas dez servidores dedicados à Operação Sem Desconto, um número considerado insuficiente. A estimativa interna da PF aponta a necessidade de pelo menos quatro vezes mais policiais para dar conta do volume de trabalho.
Esse cenário levou a PF a pedir ao ministro Mendonça, em junho, a prorrogação das investigações por mais 60 dias. No ritmo atual, a análise completa do material recolhido levaria pelo menos seis meses. Desde a primeira fase da operação, deflagrada em abril de 2025, apenas metade do material foi analisado pelos peritos e investigadores.
Alcance da Investigação e Suspeitas de Interferência
O escopo da investigação torna o déficit de efetivo ainda mais crítico. As diligências incluem pedidos de quebras de sigilo bancário, fiscal e telemático de investigados, entre eles, Lulinha. As medidas miram a possível proximidade entre ele e o “Careca do INSS”, apontado como peça central no esquema de descontos fraudulentos em aposentadorias e pensões. A situação levanta suspeitas entre investigadores e integrantes do Judiciário.
Para alguns acompanhantes do caso, a escassez de pessoal, somada a recentes mudanças na equipe responsável pela condução do inquérito, alimenta a desconfiança. A percepção é que o esvaziamento da força de trabalho, mesmo que não intencional, poderia beneficiar indiretamente os investigados. O governo federal e a direção da PF negam qualquer motivação política, afirmando que as alterações são de caráter exclusivamente administrativo.
Mudança na Coordenação e Remoção de Delegado
Em abril, a PF promoveu uma alteração na coordenação interna do inquérito, transferindo a condução do caso para outra estrutura. A mudança retirou da linha de frente um delegado que, semanas antes, havia solicitado ao STF medidas relacionadas à quebra de sigilo bancário de pessoas ligadas ao caso, incluindo Lulinha. Essa coincidência gerou a percepção de que decisões administrativas estariam impactando apurações politicamente sensíveis.
A defesa de Lulinha negou qualquer relação comercial com o “Careca do INSS” e afirmou desconhecer fraudes ligadas ao INSS. Segundo os advogados, quando Lulinha se comunicou com Antunes, não tinha conhecimento dos esquemas envolvendo a Previdência. A versão foi divulgada pela mídia.
Outras Investigações Sensíveis sob Relatoria de Mendonça
A Operação Sem Desconto não é a única investigação sensível sob relatoria do ministro André Mendonça com ramificações próximas ao Palácio do Planalto. Paralelamente, a Operação Compliance Zero, que apura fraudes bilionárias ligadas ao Banco Master e ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, também se aproximou de figuras com vínculos diretos ao governo. A nona fase desta operação, deflagrada em junho, teve como alvo o então líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA).
Fontes ligadas às apurações indicam que crescia no governo o receio de que os inquéritos sob relatoria de Mendonça atingissem pessoas do entorno próximo ao presidente. Uma medida articulada pelo presidente Lula e pela direção-geral da PF determinava o retorno de policiais federais cedidos a outros órgãos, mas a iniciativa foi parcialmente revista após repercussão negativa. Especialistas apontam que a convergência de investigações sensíveis sob o mesmo gabinete pode ter motivado uma tentativa de reorganização dos quadros da PF.
Convocação de Policiais e Exceções
Mais de uma centena de servidores das forças federais de segurança foram convocados a retornar às suas funções de origem. No entanto, o STF e os gabinetes de ministros, incluindo o de André Mendonça, ficaram de fora da determinação. Delegados que atuam em gabinetes de ministros, mesmo aqueles que auxiliam em processos sensíveis como os do INSS e do Master, foram mantidos em seus postos. A justificativa oficial para a convocação era o fortalecimento do combate ao crime organizado.
Oficialmente, o Ministério da Justiça sustenta que a medida integra uma estratégia de fortalecimento das forças de segurança, sem relação com o conteúdo das investigações. Contudo, parte dos investigadores interpreta a movimentação como uma possível tentativa de enfraquecer estruturas de apoio técnico a apurações sensíveis para o governo. A retirada desses profissionais poderia comprometer a capacidade de apoio ao gabinete em momentos críticos das apurações, conforme alerta de especialistas em segurança pública.
Mesmo com o recuo parcial na convocação, questionamentos persistem. Argumenta-se que a retirada de poucos policiais teria impacto limitado sobre o déficit histórico da PF, ao mesmo tempo em que poderia comprometer atividades estratégicas em outros órgãos. A situação levanta um alerta sobre a convergência temporal entre mudanças burocráticas e o avanço de investigações que tocam o núcleo familiar e político próximo ao presidente, exigindo acompanhamento contínuo.