Ancine quer impulsionar filmes brasileiros com nova regra para Cota de Tela, combatendo horários de baixa audiência.
A Agência Nacional do Cinema (Ancine), ligada ao Ministério da Cultura, apresentou uma nova instrução normativa com o objetivo de fechar brechas na Cota de Tela. Este mecanismo, restabelecido pelo governo Lula em 2024, obriga os cinemas a reservarem parte de sua programação para filmes brasileiros.
A medida surge após a constatação de que a simples obrigatoriedade de exibir produções nacionais não tem sido suficiente para atrair o público às salas. A Ancine observou que, mesmo quando a cota é cumprida, a participação dos filmes brasileiros no público total fica sistematicamente abaixo de sua participação nas sessões.
Essa discrepância sugere que muitas sessões destinadas a filmes brasileiros ocorrem em horários de menor procura ou por períodos insuficientes para construir audiência, como revelado por reportagem da Folha de S.Paulo. Conforme a Ancine, o cumprimento formal da obrigatoriedade de programação não tem se traduzido em resultados efetivos de público e bilheteria.
Estratégias para “esvaziar” a Cota de Tela em evidência
Um exemplo claro dessa prática foi noticiado pela Folha de S.Paulo, que mostrou a rede Cinemark programando milhares de sessões da animação brasileira “Zuzubalândia: o Filme” em horários de baixa procura. O filme, com apenas 1 hora de duração, teve 17.237 sessões em 2024, mas foi assistido por apenas 1.882 pessoas, uma média de 0,1 espectador por exibição.
Em alguns casos, a situação era tão desoladora que a reportagem flagrou uma funcionária do Cinemark realizando limpeza em uma sala enquanto o filme era exibido, com as luzes acesas. Essa estratégia permitia que os cinemas cumprissem a obrigação formal da Cota de Tela, mas reservando os horários nobres para filmes estrangeiros de maior apelo comercial.
Nova Instrução Normativa busca incentivar horários nobres e permanência
A Instrução Normativa nº 175, que entra em vigor para 2026, muda a lógica de contabilização da Cota de Tela. Em vez de apenas contar o número de sessões, a Ancine passa a criar incentivos para que filmes brasileiros sejam exibidos em horários de maior procura e permaneçam mais tempo em cartaz.
Sessões de longas brasileiros programadas a partir das 17h, em qualquer dia da semana, agora recebem um acréscimo de 0,10 na contagem da cota. A ideia é que uma sessão em horário nobre tenha um peso maior do que uma sessão esvaziada pela manhã ou no início da tarde.
Além disso, a norma introduz um incentivo de permanência. Filmes brasileiros exibidos entre a segunda e a quarta semanas cinematográficas no mesmo complexo ganham um acréscimo adicional de 0,025, desde que também estejam programados após as 17h. Se o título sair de cartaz e retornar posteriormente, a contagem recomeça.
Bônus para filmes premiados e dados preocupantes de audiência
Outra mudança significativa amplia o bônus para obras premiadas. Agora, além da categoria de melhor filme, também contam premiações de melhor ator, melhor atriz, melhor diretor e melhor roteiro em festivais reconhecidos pela Ancine. Nessas condições, sessões após as 17h recebem um acréscimo de 0,15.
Os dados apresentados pela própria Ancine evidenciam o desafio de impulsionar o público para o cinema nacional. Em 2024 e 2025, o cinema brasileiro representou 15,7% das sessões, mas apenas 10,1% e 9,9% do público, respectivamente. Em 2026, esse número caiu para 6,5%.
O maior sucesso nacional de bilheteria do último ano foi “O Agente Secreto” (2025), que atingiu 2,4 milhões de espectadores e arrecadou R$ 51,1 milhões. No entanto, este valor já está atrás de filmes estrangeiros como “Michael” (2026), que arrecadou R$ 85 milhões, e “O Diabo Veste Prada 2” (2026), com R$ 74,4 milhões.