Crise no Oriente Médio Eleva Custos e Gera Alerta no Agronegócio Brasileiro
A escalada de tensões no Oriente Médio acendeu um sinal vermelho para o agronegócio brasileiro. O setor, fortemente dependente de insumos importados e com vasta atuação internacional, se vê na mira dos efeitos da instabilidade geopolítica.
Rotas comerciais e o custo de itens essenciais para produção e logística já sentem os reflexos, preocupando produtores e exportadores. A volatilidade no mercado global de commodities e energia exige atenção redobrada.
Acompanhe os detalhes de como o conflito, iniciado em 28 de outubro, pode impactar desde os fertilizantes até a carne que chega à sua mesa, conforme análises de especialistas e dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC).
Fertilizantes em Alta: O Impacto da Ureia no Custo da Produção
Uma das principais preocupações reside no mercado de ureia, o fertilizante nitrogenado mais utilizado no Brasil e fundamental para culturas como milho, café e cana-de-açúcar. O Irã é um dos maiores fornecedores globais, mas outros países como Catar, Omã e Nigéria, que utilizam gás natural iraniano em sua produção, também são cruciais para o abastecimento brasileiro.
Em 2025, o Brasil importou 7,7 milhões de toneladas de ureia, com 51,7% provenientes desses países. A produção de ureia é intensiva em energia, com quase 90% de seu custo atrelado ao gás natural. A instabilidade na região já provocou a retirada de ofertas de venda por produtores do Oriente Médio, elevando os preços no mercado global e nacional.
Segundo a consultoria Argus, os preços dos fertilizantes nitrogenados já registraram alta em 2 de outubro. A duração do conflito pode não apenas encarecer o insumo, mas também dificultar o abastecimento total no país. Embora parte dos produtores já tenha antecipado a compra, estima-se que entre 30% e 50% ainda estejam expostos às flutuações do mercado internacional.
Petróleo em Disparada: O Custo do Transporte no Agronegócio
A logística do agronegócio brasileiro, predominantemente rodoviária, torna o setor extremamente sensível às variações no preço do petróleo. Com a alta de 15% no barril de Brent desde o início dos conflitos, os custos de transporte tendem a aumentar significativamente.
O fechamento do Estreito de Ormuz pela Guarda Revolucionária do Irã, por onde circula cerca de 20% do petróleo e gás natural liquefeito mundial, adiciona um prêmio de risco ao barril e pressiona os preços dos combustíveis fósseis. Essa incerteza nas rotas estratégicas de exportação impacta diretamente os custos logísticos.
A XP Investimentos estima que um aumento de 10% no preço do barril de Brent pode elevar a inflação oficial em 0,25 ponto percentual. Um cenário com o Brent a US$ 70 por barril ao longo do ano representaria um risco de alta de até 0,4 p.p. para o IPCA.
Dólar em Alta e Suas Duas Faces para o Agro
A cotação do dólar, que atingiu R$ 5,28 em 3 de outubro, acumulando alta de 3% em poucos dias, também gera preocupação. Crises globais costumam levar investidores a buscarem a segurança do dólar, desvalorizando moedas de países emergentes.
Por um lado, a alta do dólar encarece a importação de insumos, como fertilizantes e defensivos agrícolas. Por outro, pode favorecer as exportações brasileiras, tornando os produtos nacionais mais competitivos no mercado internacional.
Exportações e o Desafio de Manter o Fluxo Comercial
O Irã é um importante comprador de produtos do agronegócio brasileiro. Em 2025, o país importou US$ 1,98 bilhão em cereais, farinhas e preparações, além de soja e produtos do complexo sucroalcooleiro. O milho, em particular, teve o Irã como principal destino em 2025, com a importação de cerca de 9 milhões de toneladas, representando 23% das exportações brasileiras do cereal.
Apesar da crise no Oriente Médio, o volume de compra de milho pelo Irã não deve ser drasticamente afetado. No entanto, o aumento dos custos de produção, devido ao encarecimento de fertilizantes e transporte, pode impactar outras cadeias, como a da carne, já que o milho é insumo essencial para ração animal e confinamento de gado.
No setor de carne bovina, o fechamento do Estreito de Ormuz é um risco, pois o Brasil lidera a produção de carne halal e depende dessa rota para exportar mais de 28 mil toneladas mensais. Rotas alternativas existem, mas são mais caras e complexas.
As exportações de carne bovina para países árabes somaram US$ 1,79 bilhão em 2025. Embora o Irã não seja o maior mercado para o agro brasileiro, a China e a União Europeia continuam sendo os principais destinos.
Biocombustíveis: Um Possível Alívio em Meio à Crise?
Em contrapartida, o setor de biocombustíveis brasileiro pode se beneficiar da crise. Com a disparada nos preços do petróleo, a competitividade do biodiesel e do etanol tende a aumentar, impulsionando seus preços.
Essa alta nos biocombustíveis, produzidos a partir da soja e da cana-de-açúcar (e cada vez mais do milho), pode, em alguma medida, compensar parte do aumento de custos observado em outros setores do agronegócio, como o de fertilizantes.