Crise da Masculinidade: Congresso "Fearless" Debate Virtudes Cristãs Contra "Pecados Necessários" Feministas

Crise da Masculinidade: Congresso “Fearless” Debate Virtudes Cristãs Contra “Pecados Necessários” Feministas

Resumo

A crise da masculinidade: um chamado à virtude em tempos de slogans performáticos.

Recentemente, o Congresso Fearless, realizado em Guadalajara, México, gerou intensos debates ao propor uma reflexão sobre a masculinidade sob a ótica de virtudes cristãs. O evento, que ocorreu de 16 a 19 de abril, foi anunciado como um espaço para fomentar uma visão positiva do homem, em contraste com as interpretações de seus detratores, que o rotularam como um encontro machista.

A organização do Fearless explicou que o nome “Destemido” reflete a percepção de uma crise silenciosa: muitos homens se sentem confusos, vazios e desconectados do propósito de suas vidas. A identidade masculina, segundo eles, tem sido enfraquecida, deixando questões profundas sem resposta, como “sou bom o suficiente?” ou “tenho o que é preciso?”.

Essa perspectiva se alinha com análises como a de Richard Reeves em seu livro “Of Boys and Men”, que aponta para o declínio masculino em diversas áreas, como educação, emprego e saúde. No entanto, o Congresso Fearless vai além, abordando a crise masculina também por um viés moral, citando o orgulho, a ambição, o egoísmo e a luxúria como fatores contribuintes. As informações foram divulgadas pelos organizadores do evento e por análises sobre o tema.

A crise masculina: fatos sociais e feridas morais.

Richard Reeves, em seu ensaio de 2022, “Of Boys and Men”, destacou que os homens estão, de fato, enfrentando dificuldades objetivas. Ele apontou maiores taxas de evasão escolar, menor acesso à universidade, desemprego decorrente da desindustrialização, aumento da depressão, suicídios e vícios, além de dificuldades na formação familiar e menor contato com os filhos. Reeves foca em causas sociais, mas tangencia a influência de fatores culturais e de certas mensagens feministas que podem agravar o sentimento de inadequação masculina.

O Congresso Fearless, por outro lado, reconhece esses fatores sociais e culturais, mas adiciona uma dimensão moral à discussão. A ideia central é que o homem moderno está “perdido” também por conta de **feridas internas**, como orgulho, ambição desmedida, egoísmo e luxúria. Um exemplo disso foi a palestra de Christopher West sobre o “caos sexual do homem moderno”, evidenciando a busca por um **resgate interior** em vez de um combate a inimigos externos.

Virtudes cristãs em contraponto a “pecados necessários”.

Enquanto alguns movimentos de masculinidade focam em confrontar teorias de gênero ou o conceito de “masculinidade tóxica”, o Fearless Congress priorizou a luta interna. O evento deu grande destaque ao elemento religioso e à psicologia, com palestras sobre neurociência e o que as mulheres desejam. A **”teologia do corpo”**, baseada nos ensinamentos de João Paulo II sobre o significado da sexualidade humana, foi um elemento unificador, defendendo que a diferença entre homem e mulher é um projeto divino e constitutiva da identidade humana.

A “teologia do corpo” propõe o **”significado esponsal do corpo”** na natureza sexual e complementar do ser humano, ancorada em uma “essência espiritual” da masculinidade e feminilidade. Essa abordagem, segundo a especialista Blanca Castilla de Cortázar, abre um terreno fértil, mas ainda inacabado para filosofia e teologia. A questão de como a dualidade homem-mulher se reflete na realização moral de cada um é um ponto crucial a ser explorado.

O debate sobre a masculinidade: virtudes vs. slogans.

Muitos podcasts e organizações focados em masculinidade cristã, como “The Manly Catholic”, “The Catholic Gentleman” ou “Better Man”, tendem a simplificar a discussão. Frequentemente, o foco recai em ser um “guerreiro”, ter um físico musculoso ou assumir o papel de “provedor e protetor”, com um tom que se aproxima de gurus neoestoicos, misturado a emotivismo espiritual. O livro “Wild at Heart”, de John Eldredge, citado como inspiração por Andrés Villaseñor Urrea, fundador do Fearless Brothers, fala de desejo de conquista, aventura e risco, mas mescla argumentos psicológicos com apelos sentimentais e referências bíblicas.

O Congresso Fearless e “Wild at Heart” acertam ao defender as **virtudes** como guia para o comportamento masculino e superação da falta de propósito. No entanto, levanta-se a questão: essas virtudes – coragem, audácia, disciplina, humildade, castidade, autossacrifício – não são igualmente desejáveis para as mulheres? A maneira como essas virtudes são vividas difere entre os gêneros? Este é um debate que muitos discursos sobre masculinidade, incluindo o do Fearless Congress, ainda não aprofundaram.

A animosidade em torno do Congresso Fearless surge mesmo quando ele se distancia de características da “masculinidade tóxica”, como a falta de empatia e a necessidade de ser um “lobo solitário”. O evento em Guadalajara focou nas “feridas” masculinas e na necessidade de reconhecê-las e buscar apoio comunitário. Em contrapartida, a escritora Mona Eltahawy, em declaração ao El País, propõe que “pecados necessários” como raiva, busca por atenção, blasfêmia, ambição, poder, violência e luxúria são ferramentas para destruir o patriarcado.

Diante de discursos tão contrastantes, a escolha entre um ideal antropológico focado na **virtude** e outro que recomenda “raiva, busca por atenção, blasfêmia, ambição, poder, violência e luxúria” torna-se clara. A “teologia dos músculos” proposta por alguns grupos parece menos frutífera do que a abordagem mais profunda da **”teologia do corpo”**.

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