Nota de Viviane Barci, esposa de Alexandre de Moraes, reforça valores milionários pagos pelo Banco Master e levanta suspeitas sobre a natureza dos serviços.
Em um comunicado oficial, o escritório de advocacia Barci de Moraes, que tem Viviane Barci, esposa do ministro Alexandre de Moraes, como sócia, confirmou a prestação de serviços de consultoria e atuação jurídica ao Banco Master. A manifestação surge quase três meses após a revelação de um contrato milionário, que previa o pagamento de R$ 129 milhões por consultorias e assessoria jurídica a diversos órgãos de interesse da instituição e de seu presidente, Daniel Vorcaro.
A nota emitida pelo escritório detalha que os serviços englobaram uma “ampla consultoria e atuação jurídica”, executada por uma equipe de 15 advogados, com o suporte de outros três escritórios especializados. No entanto, a estrutura da equipe, que inclui advogados juniores e familiares de Moraes, como a própria Viviane e seus dois filhos, além do porte do escritório para a complexidade dos serviços, tem gerado questionamentos por parte de especialistas da área jurídica.
A divulgação dessas informações, conforme apurado pelo O Globo, reacende o debate sobre a transparência e a adequação dos valores pagos, especialmente considerando a natureza dos serviços e os envolvidos. A forma como os detalhes foram apresentados pelo escritório de Viviane Barci, em vez de dissipar as dúvidas, parece ter intensificado as indagações sobre a real finalidade do contrato milionário.
Especialistas questionam a dimensão e o custo dos serviços jurídicos prestados
Especialistas em direito têm manifestado estranhamento quanto ao porte do escritório Barci de Moraes para a realização de serviços da magnitude e complexidade que justificariam um valor de R$ 129 milhões. André Marsiglia, advogado com foco em liberdade de expressão, analisou em vídeo que, mesmo considerando valores hipoteticamente altíssimos por reunião ou parecer, o montante total se mostra incompatível.
Segundo Marsiglia, mesmo que se cobrasse R$ 200 mil por reunião, um valor considerado irreal, o total das reuniões não atingiria R$ 1 milhão. Da mesma forma, um valor de R$ 1 milhão por parecer, também irreal e superior ao cobrado por ex-ministros do STF, não fecharia a conta. A nota do escritório detalha 94 reuniões e 36 pareceres ao longo de 22 meses, o que representa cerca de 4,27 reuniões e 1,63 parecer por mês, com um valor mensal de aproximadamente R$ 3,6 milhões.
Contratação de escritórios “boutique” e a praxe no mercado jurídico
Katia Magalhães, jurista especialista em responsabilidade civil, explica que grandes clientes geralmente recorrem a escritórios do tipo “boutique” para consultorias de altíssima complexidade, como due diligence em processos de fusão e aquisição. Nesses casos, contudo, é comum que o trabalho seja executado por grandes bancas, com equipes robustas e dedicadas exclusivamente ao projeto, algo que difere do modelo de subcontratação citado pelo escritório de Viviane Barci.
Magalhães ressalta que, na praxe consultiva, a subcontratação de múltiplos escritórios não é usual, pois a harmonização de procedimentos internos se torna um desafio. Essa integração, segundo ela, é mais factível em escritórios de grande porte, o que não seria o caso do Barci de Moraes, de acordo com a sua estrutura.
Código de Conduta do Banco Master em contraste com indícios de irregularidades
A nota do escritório também menciona a revisão de políticas de ética e governança, a elaboração de manuais e a implementação do Novo Código de Ética e Conduta do Banco Master. Este código, disponível publicamente, orienta sobre o relacionamento com agentes públicos e enfatiza a intolerância à corrupção e suborno, classificando itens como brindes e presentes como “vantagem indevida”.
Contudo, documentos da Polícia Federal indicam que Daniel Vorcaro teria financiado um evento em Londres, com a participação de autoridades como o ministro Alexandre de Moraes e outros nomes proeminentes, que custou mais de R$ 3 milhões e incluiu a oferta de uísque Macallan, com possíveis custos individuais de até R$ 100 mil. Para Magalhães, essa relação entre o dirigente do banco e agentes públicos é incompatível com o código de conduta elaborado pelo escritório de Viviane Barci, sugerindo que o contrato pode ter tido motivações distintas da prestação de serviços advocatícios.
Análise de especialistas aponta para contradições e possíveis falhas de compliance
André Marsiglia questiona a defesa apresentada pelo escritório, apontando uma aparente contradição: o escritório de Viviane Barci alega ter implementado o compliance no Banco Master, enquanto Daniel Vorcaro foi preso em uma operação da Polícia Federal denominada “Compliance Zero”. “Eles estão assumindo a culpa de tudo o que aconteceu pela falta de compliance dentro do Banco Master? Essa é a defesa da esposa do Moraes?”, indagou o advogado.
O escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados, em sua nota de esclarecimento, detalhou a prestação de serviços ao Banco Master entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025, incluindo 94 reuniões e 36 pareceres, com um valor mensal de aproximadamente R$ 3,6 milhões. A atuação abrangeu revisão de políticas de compliance, elaboração de códigos de ética e conduta, e consultoria em diversas áreas jurídicas e regulatórias.
A nota também esclarece que o escritório nunca conduziu causas para o Banco Master no âmbito do STF e destaca sua trajetória de quase duas décadas prestando serviços qualificados a grandes clientes, combinando visão jurídica e abordagem estratégica.