Guerra no Irã eleva custos de voos e impacta o turismo: prepare-se para pagar mais caro por passagens aéreas.
A escalada de tensões no Oriente Médio, com a guerra no Irã, iniciada com ataques dos EUA e Israel em 28 de fevereiro, já reflete diretamente nos preços das passagens aéreas no Brasil. A instabilidade global e o aumento do preço do petróleo são os principais vilões por trás dessa nova alta.
O reajuste de 54,8% no querosene de aviação (QAV), anunciado pela Petrobras em 1º de abril, é o maior da história e tende a agravar uma tendência já em curso. Nos 12 meses até março, as passagens aéreas já haviam subido 23,6%, mais de seis vezes a inflação do período, segundo o IBGE.
Analistas preveem um cenário desafiador para os consumidores e para o setor aéreo. A projeção da Warren Investimentos aponta para uma alta de até 36% nas passagens aéreas ao longo deste ano. Conforme informação divulgada pela Ciano Investimentos, “Esse reajuste é o maior da história. Isso acarretará aumento de passagens e desistência de voos.”
Estreito de Ormuz: o gargalo que afeta o preço do seu voo
O principal motor dessa crise de custos é a tensão em torno do Estreito de Ormuz, por onde escoa cerca de 20% da produção mundial de petróleo. O conflito elevou o preço do barril do tipo Brent de uma média de US$ 70 para quase US$ 120 em março, impactando diretamente o custo do combustível para as companhias aéreas.
Petrobras e a precificação internacional do QAV
No Brasil, apesar de 80% do querosene de aviação ser produzido internamente, a Petrobras atrelou sua precificação à paridade internacional. Isso significa que as variações no mercado global de petróleo se traduzem diretamente nos preços domésticos do QAV. Na Refinaria Abreu e Lima, por exemplo, o preço do litro saltou de R$ 3,49 para R$ 5,40.
O combustível, agora, representa 45% dos custos operacionais das companhias aéreas, de acordo com a Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear). “Não é um movimento isolado do Brasil. O conflito no Oriente Médio e o choque de oferta de petróleo e fertilizantes elevam o preço das commodities energéticas globalmente”, explica Mônica Araújo, economista-chefe da InvestSmart.
Impacto nas tarifas e na rentabilidade das empresas
Para grupos como o Abra, que engloba Gol e Avianca, cada aumento de US$ 1 por galão no preço do petróleo exige um reajuste de 10% nas tarifas aéreas. Rafael Minotto, analista da Ciano Investimentos, alerta que “Estudos apontam que cada aumento de US$ 1 no custo do petróleo reduz de US$ 100 milhões a US$ 150 milhões no resultado operacional anual das empresas Gol e Azul somadas”.
Para mitigar os efeitos imediatos, a Petrobras implementou um mecanismo de parcelamento para o reajuste do QAV. As distribuidoras pagam apenas 18% do aumento em abril, com o restante a ser quitado em até seis parcelas, a partir de julho de 2026.
Restrição de voos e alta no frete aéreo
A Abear adverte que o aumento dos custos pode levar a “consequências severas” na oferta de serviços, com a possibilidade de restrição de novas rotas e cancelamento de voos existentes. As companhias aéreas tendem a ajustar suas operações, concentrando-se em rotas mais lucrativas e possivelmente afetando o mercado de passagens populares.
O impacto se estende ao transporte de cargas. Jackson Campos, diretor de relação com investidores da AGL Cargo, explica que o aumento do querosene de aviação tem efeito direto no frete aéreo internacional. “Quando o custo sobe, as empresas ajustam tarifas, reduzem capacidade em rotas e priorizam cargas de maior valor”, afirma.
Setores que dependem de agilidade, como medicamentos, eletrônicos e autopeças, sentem o impacto diretamente, pois o custo do frete é repassado ao consumidor final, elevando os preços de diversos produtos.
Turismo em xeque: viajar ficará mais caro
Lucas Dezordi, assessor econômico da Fecomércio-PR, alerta para os reflexos diretos no turismo. A inflação do setor já havia registrado 0,8% em fevereiro, impulsionada pela alta de 11,4% nas passagens aéreas. Com o novo aumento do QAV, espera-se uma alta de cerca de 10% ao mês nas passagens no próximo trimestre.
Segundo Dezordi, esses efeitos podem ser temporários, durando de oito a nove meses, caso o conflito no Oriente Médio não se prolongue. Nesse cenário, os custos poderiam retornar aos níveis de janeiro.