O paradoxo da inclusão: quando a busca por diversidade na indústria cultural gera novas formas de exclusão
Desde 2014, a indústria cultural tem passado por transformações significativas com a adoção de políticas de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI). O que parecia ser um avanço rumo à correção de desigualdades históricas, no entanto, tem gerado um debate acalorado sobre se a identidade se tornou um filtro para o acesso ao mercado de trabalho, transformando a inclusão em um novo tipo de exclusão.
O roteirista Jacob Savage, em artigo para a revista Compact, levanta questionamentos pertinentes sobre essa nova lógica institucional. Ele argumenta que, em vez de ampliar vozes, a política de DEI estaria priorizando perfis identitários específicos, especialmente em Hollywood, impactando negativamente profissionais mais jovens.
Essa discussão ecoa no Brasil, onde profissionais renomados relatam experiências semelhantes. A busca por representatividade, quando mal aplicada, pode resultar em um efeito contrário ao desejado, criando um cenário onde o perfil identitário pesa mais que a qualidade e a experiência. Conforme informações divulgadas pelo g1.
A Mudança nos Números: O Caso de Hollywood
Jacob Savage, roteirista em Los Angeles, observa que o mercado de trabalho criativo parece ter se fechado justamente quando a diversidade se tornou uma política institucional. Ele descreve como ser um homem branco jovem, antes uma condição neutra, passou a ser visto como um obstáculo em salas de roteiro.
Os dados apresentados por Savage são contundentes. Em 2011, homens brancos ocupavam 48% das vagas iniciais para roteiristas na televisão americana. Em 2024, esse percentual caiu drasticamente para 11,9%. Essa estatística é particularmente reveladora quando comparada à demografia dos Estados Unidos, onde a população branca não hispânica representa cerca de 56,3% em 2024.
Essa disparidade sugere que o recorte do mercado de roteiristas está significativamente abaixo da composição demográfica geral do país. Em 2011, os números estavam mais próximos da realidade. A questão que surge é: como chamar de inclusão o que parece ser uma nova forma de exclusão, especialmente para os mais jovens que buscam ingressar na área?
Reflexos no Brasil: Relatos Pessoais e Exigências de Plataformas
No Brasil, a mesma lógica se manifesta de forma menos estatística, mas igualmente reveladora. O roteirista e escritor Fabio Danesi Rossi, motivado pelo texto de Savage, compartilhou sua experiência no mercado brasileiro em seu Substack. Rossi, com um currículo notável, incluindo indicações ao Emmy e prêmios APCA, descreve uma mudança perceptível na forma como as contratações e as oportunidades são distribuídas.
Um relato particularmente emblemático envolve a Netflix. Segundo Rossi, a plataforma teria aceitado um projeto de sua equipe para uma série, mas impôs uma condição explícita: a sala de roteiro não poderia ser composta apenas por homens brancos. Na prática, isso significaria a demissão de um profissional experiente para dar lugar a um desconhecido, apenas para cumprir uma cota identitária.
Alexandre Soares Silva, também escritor e membro da equipe de Rossi, confirmou essa tendência. Ele relata que, para obter aprovação de projetos, já incluíam de antemão temas identitários que acreditavam ser bem recebidos, mas ainda assim não conseguiam o espaço esperado. Ambos são homens brancos, e suas trajetórias indicam que o perfil identitário pode estar se sobrepondo à qualidade do trabalho e à experiência.
A Reação do Público e o Futuro da Indústria Cultural
A grande pergunta que paira no ar é se esse novo regime cultural entregou o que prometia. Ele reparou injustiças históricas ou simplesmente trocou um tipo de exclusão por outro? A reação do público a algumas produções recentes sugere que a resposta pode não ser a esperada pelos idealizadores dessas políticas.
Os fracassos da Disney com obras que apresentavam um viés identitário mais acentuado, levando a empresa a recalibrar seus roteiros, são um indicativo. Somados a isso, as retaliações sofridas por marcas como Bud Light e Jaguar, cujas campanhas publicitárias focaram fortemente em fórmulas identitárias, demonstram que há um limite para a aceitação de pautas impostas de cima para baixo.
Essa insistência, em vez de gerar identificação, pode provocar rejeição. Fabio Danesi Rossi acredita que a força desse regime pode ter diminuído, mas ainda persiste. Alexandre Soares Silva é mais cético, afirmando que a situação permanece a mesma e que, mesmo que esse modelo decline no mundo, no Brasil, ele será um dos últimos a desaparecer. A lição parece ser clara: a inclusão real nasce da abertura de espaço, e não do fechamento de portas para determinados perfis.