Série “Brasil 70: A Saga do Tri” na Netflix lança olhar sobre a pressão na Seleção Brasileira e envia recado para Neymar em sua jornada rumo à Copa de 2026.
A Netflix surpreende ao apostar na ficção com “Brasil 70: A Saga do Tri”, em vez de um documentário tradicional. A minissérie reimagina a conquista do tricampeonato mundial, buscando dimensionar a grandeza mítica daquele momento para além do registro histórico.
Ao mergulhar na reconstituição fabulosa da epopeia de 1970, a obra, apesar de algumas atuações questionáveis e licenças poéticas, consegue evocar a dimensão lendária daquela conquista. Essa abordagem se diferencia de produções documentais mais diretas, como “Brasil 2002 – Os Bastidores do Penta” ou a série “Tudo ou Nada” sobre a Seleção.
A série “Brasil 70: A Saga do Tri”, conforme divulgado pela Netflix, utiliza a ficção para criar um espelho do passado que projeta uma sombra desconfortável sobre a atualidade. A obra evoca a figura de Pelé em 1970, sob o peso esmagador da desconfiança e contestação, um cenário que encontra paralelos na trajetória midiática de Neymar às vésperas da Copa do Mundo de 2026.
O peso da camisa e a arte de lidar com a pressão
A minissérie “Brasil 70: A Saga do Tri” destaca a pressão enfrentada por Pelé em 1970, que era usado pelo governo e criticado por julgarem-no ultrapassado. Essa situação, segundo a análise da obra, guarda semelhanças com o calvário midiático vivido por Neymar. A produção sugere que o Rei do Futebol conseguiu canalizar essa adversidade para alcançar uma maturidade, inclusive espiritual, que o consagrou como “divindade” no México.
O recado para Neymar parece claro: que ele aprenda e se inspire com a trajetória de Pelé. A série pode servir como um gatilho para reflexão, indo além da nostalgia ou motivação momentânea. Há uma convocação para relembrar ao mundo por que o Brasil é, inegavelmente, “A Seleção”.
Futebol como arte e reflexão, para além do esporte
A crítica aponta que os melhores resultados na representação do futebol ocorrem quando ele transcende o mero registro histórico ou entretenimento, tornando-se arte visual. Exemplos citados incluem o documentário sobre Pelé de 1974, que já na abertura demonstra uma abordagem artística, e o hipnótico “Zidane: Um Retrato do Século XXI”, que transforma o craque francês em um herói trágico.
O devastador “Diego Maradona”, de Asif Kapadia, também é mencionado por examinar as ruínas da alma de um gênio consumido pelo próprio mito. Essas obras exploram o futebol como ferramenta para iluminar aspectos profundos da condição humana e da fama.
A ficção que revela o destino e a paixão
É na ficção, no entanto, que se encontra o potencial máximo para usar o futebol como elemento revelador. “A Mão de Deus”, de Paolo Sorrentino, utiliza o esporte como manifestação do destino na vida de um jovem, enquanto “O Segredo dos Seus Olhos” usa um plano-sequência em um estádio para ilustrar como um homem pode mudar tudo, exceto sua paixão.
No Brasil, filmes como “Linha de Passe”, de Walter Salles, retratam a várzea como uma última fronteira de dignidade, e “Boleiros – Era uma Vez o Futebol…”, de Ugo Giorgetti, resgatam o futebol como patrimônio da tradição oral e da alma brasileira, sentados ao redor de uma mesa de bar.
Ted Lasso e a liderança humanista no esporte
Em contraste com a abordagem brasileira, a série “Ted Lasso”, da Apple TV, sob o disfarce de comédia corporativa da Premier League, apresenta um tratado humanista sobre liderança, saúde mental e a busca pela paternidade espiritual. A produção demonstra que o gramado pode ser mais do que um palco para os jogadores, tornando-se um espaço para reflexões mais amplas sobre a vida.
“Brasil 70: A Saga do Tri”, ao optar pela ficção, consegue, independentemente de suas qualidades artísticas, oferecer uma perspectiva valiosa. A série convida à reflexão sobre a pressão, a superação e a importância da identidade nacional no futebol, com um recado direto para Neymar e toda a Seleção Brasileira antes do desafio de 2026.