Cuba enfrentou perdas significativas na Venezuela, reacendendo debates sobre sua influência e a crise energética na ilha.
A participação de Cuba no conflito venezuelano, negada inicialmente pela vice-ministra das Relações Exteriores, Joana Tablada, em 2019, veio à tona de forma trágica. A declaração de dois dias de luto oficial em Havana pelas mortes de mais de 30 militares cubanos em um confronto com agentes enviados pelos EUA para capturar Nicolás Maduro expôs a profunda ligação entre os dois países.
Essa intervenção, que resultou na perda de vidas cubanas em solo estrangeiro, difere de missões anteriores com justificativas morais, como o apoio em Angola contra o apartheid. Na Venezuela, a presença cubana serviu para sustentar um regime criticado por sua repressão e pela fuga de milhões de venezuelanos.
A propaganda oficial cubana frequentemente retrata suas forças de segurança como infalíveis, capazes de missões de alto risco. No entanto, a magnitude do desastre de 3 de janeiro forçou Havana a reconhecer o envolvimento de seus agentes, que estariam prestando serviços de inteligência e contraespionagem a pedido de Caracas.
Ameaças e Negociações: A Posição de Maduro e a Pressão Americana
A situação de Nicolás Maduro se tornou ainda mais complexa com a decisão de Donald Trump de intervir no governo venezuelano pós-Maduro. A Casa Branca sinalizou que a “presidente interina”, Delcy Rodríguez, deveria cortar o fluxo de ajuda a Cuba. A perspectiva de um colapso do sistema cubano sem intervenção militar direta dos EUA paira no ar.
A possibilidade de um colapso abrupto do governo cubano levanta questões sobre o controle migratório. Cuba, a apenas 145 quilômetros da Flórida, poderia gerar uma onda migratória imparável em caso de instabilidade social, mesmo para a poderosa Força Delta.
O advogado e cientista político cubano Roberto Veiga sugere que o entendimento entre Trump e setores do chavismo pode indicar um novo padrão de ação dos EUA na região. Essa dinâmica pode forçar Havana a mudanças significativas, que não garantem automaticamente uma abertura democrática, mas sim focadas em economia, controle e poder.
O Petróleo como Elo: Uma Relação de Dependência Energética
A relação entre Cuba e Venezuela se consolidou com o Acordo de Cooperação Abrangente de 2000, que previa a troca de médicos e tecnologia cubana por petróleo venezuelano a preços vantajosos. Essa parceria foi vital para Cuba, ajudando a mitigar os efeitos do embargo americano.
No entanto, a produção de petróleo venezuelano sofreu um declínio acentuado devido à má gestão e às sanções americanas. Os embarques para Cuba caíram drasticamente, de cerca de 100.000 barris por dia na era Chávez para uma média de 18.000 barris em 2025, conforme o economista Omar Everleny Pérez Villanueva. Essa redução é crítica para a ilha, cuja população corre o risco de uma crise ainda mais profunda.
“Os 32 cubanos que acabaram de morrer morreram por causa do petróleo”, afirmou Everleny à CNN, ressaltando a importância vital desse recurso para a sobrevivência de Cuba.
O Futuro Incerto: Relações Diplomáticas sob Pressão
O governo venezuelano, sob forte pressão dos EUA, ainda não se pronunciou sobre a manutenção ou o corte do fornecimento de petróleo a Cuba. A interrupção desse fluxo seria fatal para a ilha, que teria poucas alternativas para obter o combustível necessário.
A interrupção dos serviços médicos cubanos na Venezuela também seria um golpe significativo, dada a dificuldade em encontrar substitutos para tantos profissionais. As relações entre Caracas e Havana permanecem em um delicado equilíbrio, com o futuro incerto diante das novas realidades geopolíticas.
O golpe de Trump embaralhou as peças no tabuleiro político, e Havana aguarda os próximos movimentos, sem clareza sobre como reconfigurar sua estratégia diante de um cenário em constante mudança. A dependência energética e a influência política de Cuba na região estão sob escrutínio.