Crise entre André Mendonça e PF: veja a linha do tempo do impasse
O impasse entre o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, e a cúpula da Polícia Federal (PF) se intensificou ao longo de 2026. A crise culminou, nesta quinta-feira (6), com a mobilização nos bastidores de integrantes do governo Lula para conter os desdobramentos.
As divergências começaram em fevereiro, após Mendonça assumir a relatoria da investigação do Banco Master. O conflito se estendeu a inquéritos relacionados ao empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A tensão crescente levanta questionamentos sobre a autonomia da PF e a condução de investigações sensíveis. Conforme apurado pelo jornal Folha de S. Paulo e noticiado pela CNN Brasil, a Advocacia-Geral da União (AGU) foi acionada para contestar decisões do ministro. Acompanhe a cronologia dos principais acontecimentos.
Mendonça restringe acesso da PF e aumenta tensão
Em fevereiro, André Mendonça determinou que informações sobre o caso Banco Master fossem compartilhadas apenas com policiais diretamente responsáveis pela investigação. Essa decisão foi interpretada como uma tentativa de limitar a influência do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, impedindo seu acesso a dados de inquéritos sensíveis sem vínculo formal.
Mendonça enfatizou em seu despacho que as autoridades administrativas deveriam “apenas prover os meios e recursos humanos e materiais necessários ao bom, celeré e efetivo andamento das investigações”.
Inquéritos contra Lulinha ampliam o conflito
A PF protocolou um pedido de investigação contra Lulinha à Presidência do STF como “fatos novos”, sem solicitar autorização de Mendonça, relator das investigações do INSS. Essa manobra poderia levar a um sorteio de um ministro diferente para conduzir o caso.
No entanto, o sistema do STF manteve os dois primeiros pedidos de investigação contra o filho do presidente com Mendonça, enquanto um terceiro foi remetido ao ministro Flávio Dino. Essa situação gerou estranhamento no STF, sendo vista como uma tentativa de afastar o caso de Mendonça, que tem manifestado insatisfação com a lentidão das investigações no INSS.
A PF tem alegado falta de pessoal para analisar o material apreendido, mas já trocou o delegado responsável pelas investigações três vezes.
PF aciona AGU e contesta Mendonça em decisões
A Polícia Federal recorreu à Advocacia-Geral da União (AGU) para contestar ordens do ministro André Mendonça no caso do INSS. A PF alegou que as medidas impostas pelo relator poderiam interferir nas investigações e ferir a autonomia da instituição.
Entre as decisões contestadas, estavam a restrição de acesso a informações pela cúpula da PF, a exigência de comunicação sobre trocas de equipes e a remessa de dados brutos ao gabinete do ministro.
Risco de vazamento em investigação contra Jaques Wagner
Mendonça determinou o monitoramento do senador Jaques Wagner (PT-BA), investigado no caso Banco Master, após suspeitar de risco de vazamento de informações. Em despacho tornado público em 30 de junho, o ministro relatou ter recebido um pedido de audiência de um dos investigados no mesmo dia em que a PF solicitou autorizações para busca e apreensão e monitoramento.
“Quanto ao ponto, impende realçar a ocorrência de fato que agudiza os riscos de vazamento indevido da operação no presente caso. Trata-se de solicitação de audiência, por parte de um dos investigados, recebida pelo meu gabinete, enquanto Ministro relator do caso, no mesmo dia em que aportaram as representações da Polícia Federal relacionadas à presente fase investigativa (09/06/2026), inclusive em horário anterior à distribuição de algumas das representações formuladas”, disse o relator.
AGU atua como mediador para conter a crise
Diante da crise, o advogado-geral da União, Jorge Messias, assumiu a mediação entre as partes. Na manhã de quinta-feira (6), uma reunião entre Mendonça, Messias e o ministro da Justiça, Wellington César Lima, foi considerada positiva, resultando em um acordo de cooperação institucional, segundo apuração da CNN Brasil.
Lima ouviu as queixas de Mendonça e teria se colocado à disposição para melhorar a interlocução entre o ministro e a PF. Integrantes do governo sugeriram um encontro presencial entre Mendonça e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.
Superintendentes da PF apoiam diretor-geral
Apesar da reunião considerada positiva, a temperatura institucional permanece elevada. Os 27 superintendentes regionais da PF divulgaram nota oficial de apoio ao diretor-geral, Andrei Rodrigues. Eles destacaram que a credibilidade da instituição “decorre da atuação técnica e independente de seus servidores, orientada exclusivamente pelos fatos, pelas provas e pelos mecanismos de controle previstos no ordenamento jurídico”.
“A atividade investigativa da Polícia Federal não se submete a interesses políticos, ideológicos ou pessoais, mas ao estrito cumprimento da lei”, enfatizaram os chefes estaduais da PF, defendendo que “a preservação da independência técnica das investigações e da autonomia administrativa” são indispensáveis para a atuação da corporação.