Mensagens interceptadas sugerem que Lulinha participava de reuniões de lobby e orientava empresários, com investigações em andamento no STF.
Mensagens encontradas no celular de Roberta Luchsinger, empresária investigada por suspeitas de tráfico de influência, apontam indícios de que Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Lula, teria atuado em reuniões com membros do governo federal.
Os diálogos analisados sugerem que Lulinha podia ter participado ou até mesmo orientado encontros para supostas ações de lobby, mencionando pessoas de diferentes esferas governamentais e tratando de negócios.
Esses pontos são investigados em três inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF), com Lulinha como alvo. A informação foi divulgada inicialmente pelo Metrópoles e confirmada pela Gazeta do Povo.
Atuação em Reuniões e Negócios Sob Investigação
As conversas interceptadas indicam que Lulinha mantinha contato frequente com Luchsinger, amiga pessoal, e discutia negócios. Em um episódio, ele teria orientado sobre a emissão de uma nota fiscal de aproximadamente R$ 150 mil para um empresário investigado.
Um dos negócios sob investigação envolve o lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, que buscava um contrato para fornecimento de cannabis medicinal ao Ministério da Saúde. Lulinha e Antunes viajaram juntos a Portugal para conhecer um sistema de produção, embora ambos neguem contratos ou sociedades avançadas.
As tratativas de Antunes com o Ministério da Saúde foram interrompidas após a Operação Sem Desconto, que o apontou como operador de um esquema de fraudes contra aposentados. Lulinha não é investigado nesta frente específica, mas é alvo em outros inquéritos.
Inquéritos e Possível Tráfico de Influência
Nos inquéritos sobre suspeita de tráfico de influência, Lulinha é investigado. As mensagens, no entanto, ainda estão sendo analisadas em seu contexto integral. As suspeitas atuais não configuram, até o momento, uma conclusão judicial sobre a prática de tráfico de influência.
Investigadores veem nas mensagens indícios da participação de Lulinha em tratativas envolvendo empresários, a lobista e integrantes do governo federal, com a possibilidade de encontros presenciais. Lulinha reside na Espanha.
Diálogos com Autoridades e Empresários
Em um diálogo atribuído a março de 2024, Lulinha teria mencionado a Roberta reuniões com Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, então chefe de gabinete de Lula, e Swedenberger Barbosa, o Berger, que ocupava a Secretaria-Executiva do Ministério da Saúde.
Em julho de 2023, Lulinha teria pedido a Roberta que convidasse Carlos Eduardo Gabas, ex-ministro da Previdência, para um encontro. Roberta teria respondido que contatou diversas pessoas, incluindo um governador e secretários, e, na sequência, Lulinha pediu a emissão de uma nota fiscal para Cleber Ribas, empresário ligado à 3Structure IT.
A 3Structure IT possui contratos com o governo federal que somam quase R$ 86 milhões, incluindo um com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, no valor de mais de R$ 42 milhões. A defesa de Ribas afirma que os pagamentos a Roberta foram legítimos e sem relação com os contratos governamentais.
Interpretação Ampliada e Outros Personagens
A Polícia Federal (PF) considera uma interpretação mais ampla dos fatos, suspeitando que presentes e pagamentos feitos por Roberta poderiam ter sido usados para ampliar o acesso e influência de pessoas próximas ao gabinete da presidência.
Outro personagem citado é Fernando Bittar, que, segundo Roberta, estaria usando o nome de Lulinha para tentar fechar um negócio na Telebras. Lulinha teria questionado se a informação foi desmentida, e Roberta teria afirmado que sim.
Roberta teria recebido aproximadamente R$ 1,5 milhão em repasses atribuídos ao “Careca do INSS”. Em uma transferência, Antunes teria mencionado que parte do dinheiro seria destinada ao “filho do rapaz”, expressão que investigadores avaliam como possível referência a Lulinha.
Defesas Contestam e Apontam Vazamentos
A defesa de Lulinha contesta a interpretação das mensagens, alegando que são fragmentos fora de contexto e questionando a origem e integridade do material. Pedem investigação sobre eventual vazamento de informações sigilosas.
A defesa de Roberta Luchsinger optou por não comentar devido ao sigilo do inquérito. As defesas de Marcola e Cleber Ribas também se manifestaram, com a defesa de Ribas sustentando a relação pessoal entre ele e Lulinha e a transparência dos contratos da 3Structure com o governo.
Preocupação com Vazamentos na PF
Internamente, a PF trata o suposto vazamento de informações sigilosas como algo grave a ser apurado. A defesa de Lulinha já recorreu a órgãos como o Ministério da Justiça e o STF para pedir investigação sobre a divulgação das conversas.
Para investigadores, as mensagens indicam que Lulinha tinha conhecimento das atividades empresariais de Roberta e participava de discussões sobre negócios e reuniões com figuras importantes do governo. Contudo, o foco agora é estabelecer o contexto completo das conversas e verificar se houve contrapartida entre articulações e contratos governamentais.
Os Três Inquéritos Contra Lulinha
As mensagens atribuídas a Roberta e Lulinha permeiam três inquéritos no STF. Dois deles, relatados pelo ministro André Mendonça, apuram suspeitas de tráfico de influência e corrupção relacionadas a negócios com cannabis medicinal e a atuação em favor de empresas na Dataprev.
O terceiro inquérito, com relatoria do ministro Flávio Dino, investiga suspeitas de tráfico de influência em contratos de tecnologia e a possível proximidade de Lulinha com o poder político para favorecer empresas de seu círculo. Este inquérito também examina possíveis vazamentos de dados sigilosos da própria investigação.