O que a “lógica terceiro-mundista” tem a ver com o conflito Israel-Palestina e a postura anti-EUA? Entenda a complexa teia de ideias que une ativistas e acadêmicos.
A recente onda de protestos e manifestações após os ataques de 7 de outubro revelou uma profunda influência de um conjunto específico de ideias no discurso político contemporâneo. Muitos denunciam Israel como um “Estado colonizador” e clamam pela “descolonização”, utilizando um vocabulário que, para alguns, vai além de uma simples crítica a políticas específicas.
Essa perspectiva, frequentemente associada ao chamado “terceiro-mundismo”, vê o Ocidente como o opressor eterno e considera justa qualquer ação contra o poder ocidental. A confusão com islamismo ou comunismo é comum, mas a raiz do argumento atual reside em uma interpretação moldada por décadas de pensamento pós-colonial e estudos de descolonização.
Conforme análise divulgada pelo Hudson Institute, essa visão de mundo, nascida em locais como Paris, Argel e Havana e refinada em universidades ocidentais, aplica um roteiro simplificado de “Ocidente versus não-Ocidente” a conflitos complexos. A descolonização, originalmente ligada à retirada de impérios europeus, tornou-se uma teoria global de poder que opõe estruturas ocidentais opressoras a comunidades que as resistem, ignorando nuances históricas e políticas locais. Essa análise cita a ensaísta somali-americana Najma Sharif, que provocou: “O que vocês achavam que era a descolonização? Estética? Artigos acadêmicos? Ensaios? Perdedores”.
A Descolonização como Lente de Interpretação Universal
A teoria decolonial, segundo a análise, transformou a descolonização em uma lente através da qual o mundo é interpretado. Israel é visto como a “última colônia de povoamento” do Ocidente, e os palestinos, como os representantes da resistência global. Essa categorização pré-determinada ignora a história, a política e as complexidades intrínsecas da região, simplificando o conflito em um binário moral de opressor contra oprimido.
Esse roteiro universal explica a facilidade com que acusações contra Israel se espalham globalmente. Os detalhes do conflito tornam-se secundários diante da adequação ao modelo. Israel é condenado não necessariamente pelo que faz, mas pelo que se presume que representa: a dominação ocidental. O “terceiro-mundismo” fornece o impulso emocional, enquanto a “descolonização” oferece o arcabouço conceitual.
Raízes Intelectuais: De Rodinson a Said e Fanon
As origens dessa linha de pensamento remontam ao final dos anos 1960, com a publicação de “Israel: Um Estado de Colonização de Povoamento?” pelo historiador marxista Maxime Rodinson. Rodinson reinterpretou o sionismo como um movimento colonial, equiparando-o à expansão europeia. Essa perspectiva, embora ignorasse fatos históricos básicos sobre a ancestralidade judaica na região, ofereceu uma narrativa estrutural influente.
Edward Said, em sua obra “Orientalismo” (1978), expandiu essas categorias, argumentando que o conhecimento ocidental era, em si, um empreendimento colonial. O “colonialismo” tornou-se uma chave mestra para interpretar diversas áreas, da literatura à política externa. Paralelamente, conceitos como “colonialismo de povoamento” e “colonialismo por procuração” foram desenvolvidos, visando deslegitimar a soberania judaica.
A “questão da terra”, como definida por antropólogos, sugere que a dominação começa quando um povo é arrancado de sua relação orgânica com o território. Sob essa ótica, a presença judaica em Israel é vista como uma imposição estrangeira, independentemente de suas origens históricas. O sociólogo Ran Greenstein, em “Zionism and Its Discontents”, descreveu a presença judaica na Palestina como uma “colônia por procuração”, com a Grã-Bretanha como colonizador primário.
A Violência Revolucionária e a Influência da Argélia
A fórmula revolucionária que sustenta essa lógica ganhou força durante a Guerra de Independência da Argélia (1954-1962). A Frente de Libertação Nacional (FLN) não apenas venceu militarmente a França, mas também moldou a forma como intelectuais ocidentais discutiam poder e violência. Jean-Paul Sartre e Frantz Fanon, em “Os Condenados da Terra”, canonizaram a violência revolucionária como caminho para a libertação.
Essas obras estabeleceram a base ideológica do “terceiro-mundismo”, com categorias como “o colono ilegítimo” e “o nativo puro”. A teoria decolonial, ao absorver esse vocabulário, simbolicamente equipara Israel à França e os palestinos aos argelinos. Isso torna a negociação impossível, pois a força colonizadora só pode ser desmantelada, não reconhecida. A “descolonização da Palestina” ecoa a retórica contra a França em 1961, com a experiência argelina guiando o pensamento acadêmico e ativista.
O Impacto nos Estados Unidos e a Condenação do “Império Americano”
A mesma estrutura interpretativa que condena Israel também mira o poder americano. Israel é visto como a personificação local da dominação ocidental, enquanto os EUA são a estrutura global que a sustenta. O vocabulário usado para atacar Israel – “colono”, “colonial”, “imperial”, “racial” – é o mesmo empregado contra os Estados Unidos.
No imaginário “terceiro-mundista”, a América é o “último ator imperial”, e Israel, sua extensão mais visível. A hostilidade a Israel torna-se um substituto socialmente aceitável para a hostilidade contra a identidade, as instituições e a liderança global americana. Políticos formados nesse ambiente, como Zohran Mamdani, interpretam tudo através do contraste entre império e libertação, vendo Israel como “o centro imaginado do poder ocidental” e a militância palestina como uma “reprisa da revolta anticolonial”.
Para essa visão, os EUA não são apenas aliados de Israel, mas a própria estrutura que o possibilita. Ao descrever Israel como colonial, políticos como Mamdani condenam os Estados Unidos como o “motor mais profundo da injustiça”. A retórica decolonial, portanto, transita facilmente de Gaza para questões internas americanas como policiamento, capitalismo e fronteiras.
A “Lógica Terceiro-Mundista” e a Impossibilidade de Reconhecer Atrocidades
A “imaginação decolonial” falha em registrar o 7 de outubro como uma atrocidade em seus próprios termos. Reconhecer Israel como vítima quebraria a narrativa que define tanto Israel quanto os EUA como inerentemente opressores. O sistema interpretativo decide antecipadamente o significado dos fatos. Admitir complexidade moral no caso de Israel exigiria admitir complexidade no caso da América, algo que a “visão de mundo terceiro-mundista” não pode processar.
Essa abordagem, que se consolidou nas universidades americanas a partir dos anos 1990 e 2000, com figuras como Karen Brodkin e Joseph Massad, reduz a complexidade do Oriente Médio às certezas morais do pensamento decolonial. Judith Butler, ao descrever os ataques de 7 de outubro como “um ato de resistência armada”, exemplifica como a lógica decolonial transforma organizações como o Hamas em expressões de lutas de libertação, ignorando suas ações e designações como terrorismo.
A análise do Hudson Institute conclui que o “terceiro-mundismo” fornece o instinto emocional, enquanto a “descolonização” oferece o vocabulário conceitual, obscurecendo a realidade em vez de esclarecê-la e produzindo uma ilusão de profundidade intelectual.