Oposição no Congresso Testa Força Política na Derrubada de Veto de Lula sobre Dosimetria de Penas

Oposição no Congresso Testa Força Política na Derrubada de Veto de Lula sobre Dosimetria de Penas

Resumo

Derrubada de veto à dosimetria de penas se torna teste de força política para a oposição no Congresso

A oposição no Congresso Nacional se prepara para um importante teste de força política com a articulação para derrubar o veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao projeto de lei da dosimetria das penas para condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023. A votação deste veto, que precisa ser pautada pelo presidente do Congresso, senador Davi Alcolumbre (União-AP), pode demonstrar a capacidade da oposição de manter a unidade e reafirmar seu protagonismo.

O projeto original foi aprovado com expressiva votação: 291 votos na Câmara dos Deputados e 48 no Senado. Para derrubar o veto, são necessários 257 votos favoráveis de deputados e 41 de senadores, alcançando a maioria absoluta exigida.

O veto integral foi anunciado por Lula em cerimônia alusiva aos três anos dos atos de 8 de janeiro, uma decisão interpretada por parlamentares e analistas como um movimento político estratégico que transcende o debate puramente jurídico sobre a individualização das penas. Conforme informações divulgadas, o líder do Partido Liberal (PL) na Câmara, deputado Sósthenes Cavalcante (RJ), afirmou que a derrubada do veto já estava prevista e que um acordo seria construído com os líderes do Congresso para que ocorresse na primeira sessão conjunta. No entanto, até o momento, não há sessões convocadas nem pauta definida.

Acúmulo de vetos e a dinâmica política do Congresso

Atualmente, mais de 60 vetos presidenciais aguardam apreciação no Congresso. Apenas 13 deles não estão travando a pauta, o que, em regra, lhes garantiria preferência para votação. A especialista em processo legislativo, Jandira Amaral, explica que, embora a Constituição estabeleça prazos para a apreciação de vetos, a dinâmica real é eminentemente política. “A pauta de vetos é política, prevalecem os acordos entre líderes e o governo”, afirmou Amaral, destacando que essa realidade contribui para o acúmulo de vetos pendentes.

Tentativa de agilizar a votação e o papel do Presidente do Congresso

Em uma tentativa de acelerar o processo, a deputada federal Carol De Toni (PL-SC) protocolou um requerimento para a convocação de uma sessão conjunta extraordinária do Congresso Nacional. Contudo, essa modalidade de convocação não é comum e exige apoio da maioria de ambas as Casas. Jandira Amaral lembrou que a última convocação extraordinária remunerada ocorreu em julho de 2003, para tratar de reformas previdenciária e tributária. A deputada De Toni defende a iniciativa como uma forma de “acionar o controle parlamentar e dar uma resposta institucional à sociedade”.

Estratégia política e o calendário do Congresso

A decisão sobre quando e como pautar a derrubada do veto à dosimetria das penas é mais uma questão de estratégia política do que de urgência regimental. O cientista político Alexandre Bandeira avalia que o presidente do Congresso, Davi Alcolumbre, provavelmente aguardará o fim do recesso parlamentar para pautar o tema, evitando que os eventos fiquem muito próximos. “Acho que Alcolumbre vai aguardar o retorno do recesso, para que os eventos não fiquem próximos – veto e derrubada do veto”, afirmou Bandeira.

Bandeira também pondera que a convocação extraordinária do Congresso é complexa e pouco provável, exigindo senso de urgência ou interesse público relevante. “A pressa só serve para manter o assunto em discussão. Não é fácil convocar o Congresso extraordinariamente”, disse. Ele sugere que a articulação para a derrubada do veto ocorrerá durante o recesso, para que o assunto já chegue pronto para votação na retomada dos trabalhos.

Base sólida de votos e potencial de desgaste ao governo

O analista político Luan Sperandio destaca que o Projeto de Lei da Dosimetria saiu do Congresso com uma base de votos sólida e transversal, construída ao longo de mais de um ano e meio, com apoio que vai além da oposição formal. “Isso cria um cenário realista para que o veto seja derrubado quando for à pauta”, explicou Sperandio.

Ele avalia que a matéria reúne características raras: forte apelo popular, discurso técnico-jurídico defensável e potencial de desgaste direto ao Planalto. Sperandio sugere que a votação pode ocorrer no primeiro semestre, talvez mais próxima do calendário eleitoral, o que poderia funcionar como uma “campanha de recordação” com alta repercussão.

Atritos entre Planalto e Alcolumbre e o simbolismo do veto

Recentes atritos entre o Planalto e Davi Alcolumbre podem favorecer a oposição, indicando uma disposição maior do presidente do Congresso em tratar o tema de forma técnica e institucional. A ausência de Alcolumbre na cerimônia de 8 de janeiro é vista como um sinal de distanciamento entre os poderes. A escolha da data para a apresentação do veto, o próprio 8 de janeiro, reforça o caráter simbólico da decisão presidencial, que, segundo Sperandio, busca “enquadrar o debate num eixo moral”, associando qualquer modulação de penas à condescendência com ataques à democracia.

A declaração do ex-ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, de que os crimes seriam “imprescritíveis e impassíveis de indulto”, reforça a estratégia do governo de “judicializar e sacralizar o tema, blindando-o de qualquer revisão legislativa”, pontuou o analista.

Tags:

Notícias todos os dias!

De domingo a domingo, as notícias que você não pode perder em seu e-mail.

Veja também