Sob pressão popular e com o medo social em alta, o discurso de Lula sobre segurança pública tem apresentado mudanças significativas, revelando contradições entre a retórica e as ações do governo. Especialistas apontam que essa alteração de tom é uma resposta estratégica à evolução das pesquisas de opinião, que mostram a insegurança como uma das principais angústias do eleitorado brasileiro. A audácia do crime organizado e o questionamento sobre o país se tornar um narcoestado têm impulsionado uma tentativa de alinhamento do presidente com o eleitor, especialmente quando a violência pressiona sua popularidade.
Desde o início de seu terceiro mandato, em janeiro de 2023, Luiz Inácio Lula da Silva tem navegado por um cenário complexo de segurança pública. Inicialmente, o discurso presidencial era mais crítico à atuação policial, com declarações como a de que o Estado, nas periferias, “só está presente com a polícia para bater”. Essa abordagem, segundo especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo, como o advogado Alex Erno Breunig, contribuiu para deslegitimar as forças policiais e estimular a desconfiança social.
O primeiro sinal estatístico de alerta surgiu em abril de 2023, quando a violência já aparecia como a segunda maior preocupação nacional, citada por 22% dos entrevistados em pesquisa Genial/Quaest. Naquele período, a desaprovação de Lula atingia 42%, indicando uma correlação entre a explosão da criminalidade, o temor social e os ajustes no discurso governamental, mesmo sem ações concretas correspondentes, como aponta o investigador Ségio Gomes.
Em julho de 2023, durante a assinatura do Programa de Ação na Segurança (PAS), Lula prometeu um cenário de “paz, segurança e tranquilidade”. Contudo, os meses seguintes trouxeram o oposto, com organizações criminosas ampliando sua atuação territorial e econômica, sem mudanças estruturais perceptíveis para a população, conforme analisa Gomes.
O divisor de águas: a explosão dos roubos de celular
Um marco significativo nesse cenário foi a pesquisa Datafolha divulgada em agosto de 2024, encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O levantamento revelou que 9,2% dos brasileiros tiveram o celular roubado ou furtado entre julho de 2023 e junho de 2024, totalizando cerca de 14,7 milhões de vítimas. O prejuízo estimado foi de R$ 22,7 bilhões, e 53% dos entrevistados disseram evitar circular em determinados locais por medo de ações criminosas.
Pouco antes da divulgação desses dados, Lula havia criticado policiais e afirmado que pessoas pobres não deveriam ser confundidas com criminosos. Com a repercussão negativa da pesquisa, o presidente mudou o tom, declarando que o Brasil não seria uma “República de ladrões de celulares”. Para o sociólogo Marcelo Almeida, essa pesquisa foi o gatilho para uma nova inflexão discursiva e uma mudança de postura no governo.
Em dezembro de 2024, o governo publicou um decreto regulamentando o uso da força policial, impondo restrições operacionais sob o argumento de proteção aos direitos humanos. No entanto, o decreto foi criticado por burocratizar a atividade policial e enfraquecer a capacidade de reação em cenários de alta violência, segundo Alex Erno Breunig. A reação negativa levou o governo a divulgar nota oficial em janeiro de 2025, buscando esclarecer que o texto estava sendo alvo de desinformação.
Violência no protagonismo em 2025 e o paradoxo do desencarceramento
Em março de 2025, uma pesquisa Genial/Quaest indicou que, pela primeira vez, a violência liderava as preocupações nacionais, com 29% dos entrevistados apontando a área como principal problema do país. Esse dado coincidiu com uma mudança significativa no discurso de Lula, que passou a afirmar que “o Estado é mais forte que os bandidos” e a defender a PEC da Segurança Pública, que, contudo, emperrou no Congresso.
O jurista Luiz Augusto Módulo ressalta que a sincronia entre pesquisa e discurso não foi casual, pois as pesquisas continuavam mostrando a preocupação dos brasileiros com o tema e o avanço das facções. Contudo, em fevereiro de 2025, o governo lançou o Plano Pena Justa, em parceria com o CNJ e o STF, que, na percepção de especialistas, propunha um desencarceramento em massa. Para o constitucionalista André Marsiglia, essa iniciativa contradiz o discurso de enfrentamento ao crime organizado, pois pequenos delitos financiam as facções.
Um exemplo claro dessa contradição ocorreu em outubro do ano passado, quando Lula afirmou que “traficantes são vítimas dos usuários”. Pesquisa Genial/Quaest mostrou que 81% dos brasileiros discordavam do presidente. Após a repercussão negativa, Lula caracterizou a declaração como “mal colocada”, mas não se desculpou ou admitiu estar equivocado, conforme avalia Marsiglia.
Cobrança popular e a pressão por ações efetivas
A cobrança popular sobre segurança pública não arrefeceu. Em outubro de 2025, pesquisa Instituto Paraná Pesquisas mostrou que 45,8% dos brasileiros acreditavam que a segurança pública havia piorado no governo Lula. No Rio de Janeiro, levantamento revelou apoio majoritário a megaoperações policiais.
Esses índices antecederam o envio do PL Antifacção ao Congresso e a sanção de leis mais duras contra organizações criminosas. Para Gomes e Breunig, a trajetória do discurso presidencial de Lula alternou momentos de crítica à polícia, defesa de políticas humanitárias, endurecimento retórico e apelos à cooperação internacional, sempre em resposta direta à pressão política e à opinião pública. “O governo reage aos fatos, mas não constrói uma política consistente de longo prazo”, reforça André Marsiglia.
Módulo compartilha dessa opinião, afirmando que a segurança pública tornou-se um discurso de palanque, ajustado conforme o ambiente, mas marcado por contradições entre fala e prática. “E certamente esse será um tema que vai pesar fortemente à possível campanha de reeleição em 2026, o que indica que teremos novos ajustes nos discursos, com teoria e prática não se cruzando”, sustenta.