Celso Amorim: Brasil não aderirá ao Conselho da Paz de Trump, critica proposta unilateral

Celso Amorim: Brasil não aderirá ao Conselho da Paz de Trump, critica proposta unilateral

Resumo

Celso Amorim descarta adesão do Brasil ao Conselho da Paz de Trump e aponta falhas graves na proposta

O assessor especial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para relações exteriores, Celso Amorim, declarou que o Brasil não deve aderir à proposta de criação de um Conselho da Paz apresentada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Amorim considera a iniciativa uma tentativa unilateral de reformar a Organização das Nações Unidas (ONU), o que é visto como inaceitável.

A proposta, segundo Amorim, carece de clareza e mistura conceitos distintos, gerando incertezas sobre seus objetivos reais. Ele enfatiza que uma iniciativa desse porte só teria validade se fosse resultado de uma resolução aprovada no âmbito da própria ONU, com a participação de todos os envolvidos.

“Seria preciso saber a opinião dos próprios palestinos e de outros países árabes. A própria carta (do conselho proposto por Trump) é confusa, porque começa a falar de uma coisa e depois vai alargando no documento anexo. Representa, na prática, uma revogação da ONU, sobretudo na área de paz e segurança”, afirmou Amorim em entrevista ao jornal O Globo.

Críticas à estrutura e aos objetivos do Conselho da Paz de Trump

A proposta do Conselho da Paz de Trump foi divulgada durante o Fórum Econômico Mundial em Davos. Para Celso Amorim, um ponto crítico é a ausência de menção explícita a Gaza no estatuto do conselho, o que abre margem para atuação em qualquer conflito internacional. Ele compara a proposta a um “Conselho de Segurança, só que com um presidente praticamente permanente”, destacando que países europeus ainda não aceitaram a ideia.

Outro detalhe apontado como duvidoso é a falta de espaço para negociação ou ajustes no texto apresentado por Trump. Amorim mencionou que o presidente americano teria afirmado não aceitar emendas, transformando o documento em um “contrato de adesão”, o que dificulta qualquer debate diplomático.

“Se fosse possível separar as duas coisas, aí vamos ver. Mesmo assim, não é automático. É preciso conversar, ver se isso interessa aos próprios palestinos e a outros países”, completou o assessor.

Brasil avalia riscos de enfraquecimento da ONU

Apesar das críticas, Amorim descartou a ideia de que o convite seja uma armadilha direcionada especificamente ao Brasil, dado que a proposta foi enviada a diversos países. No entanto, o presidente Lula ainda não tomou uma decisão definitiva sobre a participação brasileira.

Fontes do governo indicam que existem dúvidas relevantes, principalmente pela falta de consulta à população do território envolvido sobre seu próprio futuro. O governo brasileiro também avalia que a proposta pode enfraquecer o papel da ONU na governança global.

A posição do Planalto é que qualquer reforma no organismo internacional deve ocorrer por meio do diálogo multilateral, e não por iniciativas unilaterais. “Obviamente, Trump tem uma visão de relações internacionais em que ele é sempre a figura central. Mas não me cabe fazer um julgamento sobre isso”, pontuou Amorim.

Divergências sobre a abordagem para a paz

A postura do Brasil reflete uma divergência fundamental sobre como abordar conflitos internacionais. Enquanto Trump propõe um conselho com regras pré-definidas e pouca margem para negociação, o governo brasileiro, sob a liderança de Lula, defende a necessidade de consenso e diálogo entre as partes envolvidas.

A falta de clareza e a natureza unilateral da proposta de Trump são os principais obstáculos para a adesão do Brasil. A preocupação é que tal iniciativa possa minar as estruturas existentes da ONU, em vez de fortalecê-las, e ignorar os interesses e a autodeterminação dos povos afetados por conflitos.

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