PGR pede arquivamento de ação contra jornalistas da “Vaza Toga” e ex-assessor do TSE, citando necessidade de vias cíveis e criminais
A Procuradoria-Geral da República (PGR) se manifestou favoravelmente ao arquivamento de uma ação movida pela jornalista Letícia Sallorenzo de Freitas contra os jornalistas David Ágape e Eli Vieira, responsáveis pela série de reportagens “Vaza Toga”, e o ex-assessor do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Eduardo Tagliaferro.
A jornalista alegou ter sido vítima de uma “campanha difamatória sistemática” com o objetivo de humilhá-la e prejudicar sua carreira. No entanto, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, avaliou que os fatos apresentados pela jornalista se referem à sua honra individual e que a resolução deve ocorrer por meio de ações cíveis e criminais comuns, sem a necessidade de intervenção da Suprema Corte.
Conforme a manifestação de Gonet, “eventual impacto negativo à honra da noticiante causado pelos conteúdos impugnados poderá ser corrigido pela via individual, criminal e cível”, indicando que o STF não seria o foro adequado para julgar o caso. A decisão final sobre o arquivamento caberá ao relator da ação no Supremo Tribunal Federal.
Detalhes da acusação e a defesa da PGR
Letícia Sallorenzo buscava a condenação de Ágape, Vieira e Tagliaferro por diversos crimes, incluindo calúnia, difamação, injúria, ameaça, perseguição, incitação ao crime, associação criminosa, peculato, prevaricação, violação de sigilo funcional, coação no curso do processo e abolição violenta do Estado Democrático de Direito. Ela argumentou que os conteúdos veiculados pelos jornalistas questionavam sua atuação profissional e fomentavam condutas hostis.
A jornalista citou reportagens que divulgavam sua colaboração com o TSE, na época sob comando do ministro Alexandre de Moraes, para identificar perfis e publicações que disseminavam desinformação contra o tribunal. Contudo, Gonet ressaltou que a queixa de Letícia não está vinculada aos inquéritos das milícias digitais ou das fake news, que tramitam no STF.
O caso “Vaza Toga” e as alegações de campanha hostil
A série “Vaza Toga” baseou-se no vazamento de mensagens trocadas por ex-assessores de Alexandre de Moraes. Eduardo Tagliaferro, que chefiou a Assessoria Especial de Enfrentamento à Desinformação (AEED) no TSE entre agosto de 2022 e maio de 2023, foi uma figura central nas reportagens.
Reportagens revelaram conversas entre Tagliaferro e um assessor do ministro no STF, que indicariam o uso extraoficial do TSE para subsidiar investigações. Em abril de 2025, a Gazeta do Povo publicou mensagens de Tagliaferro expressando medo de Moraes. “Se eu falar algo, o Ministro me mata ou me prende”, teria escrito ele em março de 2024.
Em outubro de 2025, a jornalista apresentou uma notícia-crime alegando ser alvo de uma campanha digital coordenada, com termos como “bruxa do TSE”, “infiltrada” e “X-9”. Seus advogados sustentaram o uso da técnica “firehosing”, que emprega alto volume de mentiras repetitivas para desorientar o público e desacreditar o alvo.
A repercussão internacional e o processo contra Tagliaferro
Uma nova fase da “Vaza Toga” foi divulgada em agosto de 2025 no site da organização Civilization Works, do jornalista Michael Shellenberger, com informações obtidas por David Ágape e Eli Vieira. As reportagens sugeriram o uso da estrutura do TSE para investigar os atos de 8 de janeiro de 2023.
Em novembro de 2025, a Primeira Turma do STF tornou Eduardo Tagliaferro réu por violação de sigilo funcional, obstrução de investigação, coação e tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito. O ex-assessor deixou o Brasil e reside na Itália, alegando riscos por suas denúncias. O governo brasileiro solicitou sua extradição em novembro do ano passado.