O Preá-de-Moleques-do-Sul, um tesouro da biodiversidade brasileira, reside em um pequeno arquipélago rochoso a cerca de 8 quilômetros da costa de Florianópolis, em Santa Catarina. Esta ilha, com pouco mais de 10 hectares, é o único lar conhecido do mamífero mais raro do mundo, o *Cavia intermedia*, que possui a menor área de distribuição geográfica de todas as espécies de mamíferos conhecidas.
A espécie é encontrada exclusivamente na maior ilha do arquipélago de Moleques do Sul, uma área que integra o Parque Estadual da Serra do Tabuleiro, a maior unidade de conservação de Santa Catarina. Isolado há milhares de anos, o pequeno roedor sobrevive com uma população estimada entre 40 e 60 indivíduos, um número que varia conforme a disponibilidade de alimento e as condições ambientais. Essa fragilidade populacional é um alerta para a necessidade urgente de conservação.
O biólogo Marcos Eugênio Maes, do Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina, ressalta a criticidade da situação: “Quando pensamos em termos de espécie, ainda mais de roedores e mamíferos, esse é um número extremamente pequeno”. Ele explica que “qualquer coisa que aconteça nesse espaço muito reduzido pode afetar diretamente a população e até desencadear a extinção da espécie”. Conforme informações divulgadas pelo Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina, a descoberta desta espécie singular ocorreu de forma inesperada.
Uma Descoberta Acidental Revela o Mamífero Mais Raro do Mundo
A existência do preá-de-Moleques-do-Sul foi confirmada apenas nos anos 1980, resultado de um amplo estudo sobre a fauna catarinense. Inicialmente, as expedições focavam no levantamento de aves marinhas, dada a importância do arquipélago como área de reprodução para essas espécies.
Durante uma dessas campanhas, uma pesquisadora que estudava mamíferos encontrou uma ossada. Ao analisar o crânio e os ossos, percebeu que apresentavam um tamanho diferente do usual. Esse achado inicial levou a análises mais aprofundadas em laboratório e, ao longo de alguns anos, ficou claro que se tratava de uma espécie nova.
A nova espécie foi batizada de *Cavia intermedia*, popularmente conhecida como preá-de-Moleques-do-Sul. O nome, segundo Maes, carrega um valor simbólico, reforçando a importância do trabalho científico desenvolvido no estado.
O Preá-de-Moleques-do-Sul: Um Roedor Único e Ameaçado
Visualmente, o preá-de-Moleques-do-Sul assemelha-se a um porquinho-da-índia. Ele pertence ao mesmo grupo de roedores que inclui capivaras e ratos, mas sua característica mais marcante é a distribuição geográfica extremamente restrita.
“No mundo todo, esse animal ocorre apenas nessa única ilha, muito pequena, com menos de 10 hectares”, explica Maes. Ele destaca que “isso é algo muito incomum para roedores, que normalmente têm ampla distribuição e populações grandes”. Essa singularidade o torna um dos mamíferos mais ameaçados do planeta, classificado como criticamente em perigo em níveis global, nacional e estadual.
A população reduzida se deve principalmente à limitação de recursos naturais. “Eles não têm predadores naturais conhecidos. A população oscila porque o ambiente é pequeno e os recursos alimentares são limitados”, afirma o biólogo. A espécie se alimenta basicamente de gramíneas e vive, em média, de dois a quatro anos, com ciclos de vida rápidos.
O Isolamento Geológico que Criou uma Espécie Única
A exclusividade do preá na ilha catarinense remonta a um processo geológico iniciado há cerca de 8 mil anos, com a elevação do nível do mar. A teoria mais aceita é que as ilhas eram topos de morros ligados ao continente.
Com o aumento do nível do oceano, essas populações de preás ficaram isoladas, restando apenas esse pequeno fragmento de terra. Esse isolamento prolongado, com milhares de anos de reprodução em uma população pequena, levou ao processo de especiação, gerando uma nova espécie.
Os animais ocupam cerca de 4 hectares da ilha, onde a vegetação é aberta e rica em gramíneas. Eles se escondem em áreas mais densas durante as horas mais quentes do dia e retornam para se alimentar ao amanhecer, entardecer e à noite.
Proteção Prévia e Restrições de Visitação
Um fator crucial para a sobrevivência do preá-de-Moleques-do-Sul foi a criação do Parque Estadual da Serra do Tabuleiro nos anos 1970, antes mesmo da descoberta oficial da espécie. Isso garantiu que a área permanecesse praticamente intocada, protegendo o preá mesmo antes de ser conhecido pela ciência.
Com o reconhecimento da vulnerabilidade da espécie, o estado implementou o Plano Estadual de Conservação do Preá-de-Moleques-do-Sul, que abrange ações de pesquisa, educação ambiental, fiscalização e manejo. Apesar do interesse gerado, o desembarque no arquipélago é proibido, sendo a área uma zona intangível do parque estadual.
O acesso é restrito a pesquisadores autorizados e servidores de órgãos ambientais. “Qualquer distúrbio, por menor que pareça, pode colocá-la em risco”, alerta Maes. Visitantes poderiam introduzir patógenos, bactérias ou parasitas aos quais o sistema imunológico do animal não está adaptado. Além disso, o arquipélago é área de nidificação de aves marinhas, e um incêndio seria catastrófico, representando uma perda definitiva para a biodiversidade. A fiscalização é realizada pelo Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina, Polícia Militar Ambiental e Marinha.