Alerta Ignorado? PF e MP Investigam Se Fundo de Alcolumbre Recebeu Pareceres Contra Investimento no Banco Master

Alerta Ignorado? PF e MP Investigam Se Fundo de Alcolumbre Recebeu Pareceres Contra Investimento no Banco Master

Resumo

PF e MP apuram se fundo com irmão e aliado de Alcolumbre ignorou alerta sobre o Master

Os desdobramentos da operação Compliance Zero, que investiga o escândalo do Banco Master, colocam em evidência a relação política do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), com a Amapá Previdência (Amprev). A instituição, presidida por Jocildo Lemos, indicado com apoio do senador, conta com o irmão de Alcolumbre, o advogado Alberto Alcolumbre, em seu Conselho Fiscal.

A Polícia Federal e o Ministério Público do Amapá (MP-AP) irão investigar se o fundo foi formalmente alertado sobre os riscos e recebeu pareceres contrários antes de investir aproximadamente R$ 400 milhões no Banco Master, operação atualmente sob apuração por supostas irregularidades.

Conforme apurado pela Gazeta do Povo, uma ata de reunião de 30 de julho de 2024 do Comitê de Investimentos do fundo Amprev revela que Jocildo Lemos, então diretor-presidente, foi alertado por conselheiros sobre o alto risco e problemas políticos relacionados ao investimento. Sugeriram, inclusive, a consulta ao Tribunal de Contas da União (TCU) antes da decisão. Alberto Alcolumbre, na época, representava o governo no Conselho Estadual de Previdência, fiscalizando a Amprev, e no ano seguinte tornou-se conselheiro fiscal do fundo.

Ligação Política e Alertas Ignorados

Jocildo Lemos, apontado como aliado político de Davi Alcolumbre, já reconheceu publicamente o convite do senador para dirigir a Amprev. Em fevereiro de 2024, Lemos agradeceu ao senador pela indicação, afirmando que se disponibilizou a prestar um serviço à frente da Amprev, buscando entregar resultados através de uma gestão austera e conservadora.

A Amprev administra a previdência de cerca de 40 mil servidores públicos do Amapá, incluindo aposentadorias, pensões e recursos do regime próprio estadual. Trata-se de uma autarquia do Governo do Amapá.

Em julho de 2024, o fundo estadual realizou uma série de aplicações totalizando cerca de R$ 400 milhões em letras financeiras do Banco Master, sem proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Isso resultou em aproximadamente 5% do patrimônio do fundo atrelado a papéis sem lastro do Master. Essa exposição faz da Amprev o segundo maior fundo exposto à quebra do Master, atrás apenas do RioPrevidência.

Irmão de Alcolumbre no Conselho Fiscal

Um ponto sensível para Davi Alcolumbre é a presença de seu irmão, Alberto Alcolumbre, em organismos da Amprev. Entre 2023 e 2024, ele integrou o Conselho Estadual de Previdência, órgão fiscalizador da previdência amapaense. Em 2025, passou a compor o Conselho Fiscal da Amapá Previdência, cargo que lhe confere a responsabilidade de fiscalizar a gestão financeira e contábil do fundo.

A assessoria de Davi Alcolumbre nega qualquer envolvimento direto dele nas nomeações ou nas decisões de investimento do fundo, classificando qualquer tentativa de vincular o senador a esses atos como “falsa e irresponsável”.

Investigações em Andamento

O Ministério Público abriu inquérito para investigar os investimentos e responsabilizar eventuais envolvidos. A Polícia Federal, no âmbito da operação Compliance Zero, também investiga o caso e já acumula evidências que serão analisadas.

O nome do senador Davi Alcolumbre não figura nas investigações conhecidas até o momento, assim como Jocildo Lemos e Alberto Alcolumbre não são investigados formalmente. Lemos e Alberto Alcolumbre foram procurados para comentar o caso, mas não se manifestaram.

Alertas Formais Ignorados em Reunião

A ata da reunião de 30 de julho de 2024 do Comitê de Investimentos do fundo Amprev detalha a oposição dos conselheiros Gláucio Bezerra e Alexandre Flávio Monteiro a um investimento de R$ 100 milhões no Master. Bezerra expressou preocupação com informações sobre problemas políticos e de governança do emissor junto à Caixa Econômica Federal e um possível procedimento instaurado pelo TCU, sugerindo diligências adicionais para afastar riscos institucionais e de imagem.

Alexandre Flávio Monteiro demonstrou receio pela alta exposição concentrada no Master, afirmando que estaria mais tranquilo com diversificação e diligência positiva sobre o emissor. Apesar dos alertas formais, a proposta de aplicação em letras financeiras do Banco Master foi colocada em votação pelo presidente do fundo, Jocildo Lemos, e aprovada por unanimidade.

A reportagem não encontrou registros de alertas sobre o Master em relação aos outros cerca de R$ 300 milhões investidos pela Amprev na instituição.

Posicionamento da Amapá Previdência

Em nota divulgada em 2025, a Amapá Previdência afirmou que todas as suas aplicações seguiram as normas do Sistema Financeiro Nacional e a política de investimentos do RPPS. Sustentou que, à época dos aportes, o Banco Master estava autorizado a operar e que, após a liquidação extrajudicial, adotou providências para proteger os recursos.

A entidade assegura que decisões judiciais garantiram a preservação de valores para pagamento de aposentados e pensionistas, com os recursos mantidos em conta específica no Banco do Brasil. Em janeiro de 2026, a Amprev reiterou que obteve decisão judicial favorável para garantir a segurança dos recursos relacionados a empréstimos consignados, mantendo os contratos válidos e os descontos em folha sem prejuízo financeiro aos segurados.

Especialistas Alertam para Riscos

Especialistas em controle externo apontam riscos de responsabilização civil e criminal dos gestores da Amprev por gestão temerária ou corrupção. O MP-AP investiga a “compatibilidade” das aplicações com a política de investimentos. O advogado Paulo Doering destaca que, com a PF investigando a emissão de títulos sem lastro pelo Master, cresce a possibilidade de punições aos responsáveis por investimentos em desacordo com as normas dos RPPS, com risco de perda total dos recursos.

O Banco Master teve sua liquidação extrajudicial decretada em novembro de 2025 pelo Banco Central, em meio a investigações da PF sobre fraudes e emissão irregular de títulos. A quebra da instituição expôs um rombo bilionário e deixou em situação delicada diversos regimes próprios de previdência social (RPPS).

Irmão de Alcolumbre e Dinheiro em Espécie

O irmão do senador, Alberto Alcolumbre, foi conduzido pela Polícia Militar de São Paulo em 2022 para prestar esclarecimentos sobre R$ 500 mil em dinheiro vivo encontrados em um carro. Na ocasião, Alberto Alcolumbre apresentou versão de que o montante se destinava ao pagamento de honorários advocatícios, em contradição com a versão inicial do motorista sobre financiamento de campanha política. Ambos foram encaminhados a um distrito policial.

Alberto Alcolumbre negou qualquer ilegalidade, afirmando que o dinheiro estava ligado à sua atuação profissional. O senador Davi Alcolumbre, por meio de sua assessoria, informou ter conhecimento do episódio pela imprensa e que caberia ao irmão explicar os fatos.

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