Acadêmicos de Niterói escolhe Lula como tema de samba-enredo para 2026, gerando expectativa e polêmica a poucos meses da eleição presidencial.
O carnaval de 2026 promete agitar o sambódromo do Rio de Janeiro antes mesmo do desfile. A recém-chegada Acadêmicos de Niterói, que fará sua estreia na elite das escolas de samba, anunciou um enredo biográfico sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A escolha, que acontecerá na noite de abertura do evento, em 15 de fevereiro, a apenas oito meses da eleição presidencial, já causa grande alvoroço.
Apesar de o regulamento proibir propaganda política explícita, a escola tem orientado seus componentes a evitar gestos como o “L” com as mãos, buscando focar na trajetória do presidente. A novidade temática, aliada à ascensão meteórica da agremiação, tem sido amplamente comentada nos bastidores do carnaval.
A trajetória da Acadêmicos de Niterói é tão surpreendente quanto a escolha do enredo. Fundada como pessoa jurídica em março de 2018, a escola só iniciou suas atividades em setembro de 2022, quando recebeu o “presente” de sua coirmã, a Acadêmicos do Sossego. Esta última, tradicional na cidade de Niterói e com passagens pela Série Ouro do Rio, cedeu seu lugar na segunda divisão para a nova agremiação, permitindo sua rápida ascensão. Conforme informações divulgadas, Hugo Júnior, ex-diretor da Sossego, assumiu a presidência da Acadêmicos de Niterói, trazendo consigo o intérprete oficial Danilo Cezar.
Ascensão Rápida e Estratégica da Acadêmicos de Niterói
Em sua estreia no carnaval de 2023, a Acadêmicos de Niterói apresentou o enredo “O Carnaval da Vitória”, que rememorava o ano de 1946 e o primeiro carnaval após o fim da Segunda Guerra Mundial. Sob a batuta do carnavalesco André Rodrigues, a escola conquistou um expressivo quinto lugar entre 15 agremiações. Já em 2024, com o tema “Catopês – um Céu de Fitas”, sobre uma festa popular de Montes Claros (MG), a escola obteve a oitava posição, consolidando sua presença na disputa.
Após o desfile de 2024, Hugo Júnior deixou a presidência da Acadêmicos de Niterói para assumir a chefia da LIGA-RJ, entidade que organiza os desfiles da segunda divisão. Essa movimentação demonstra a crescente influência e organização da agremiação no cenário do carnaval carioca.
A Rivalidade com a União de Maricá e a Vitória Inesperada
A disputa pela vaga na elite do carnaval em 2025 colocou a Acadêmicos de Niterói em rota de colisão com a União de Maricá, escola apoiada pelo prefeito de Maricá e vice-presidente do PT, Washington Quaquá. A União de Maricá, criada em 2015 e com uma trajetória semelhante de ascensão rápida, assumindo o CNPJ de outra agremiação, investiu pesado para o carnaval de 2025, contando com subvenção milionária da prefeitura e a contratação do renomado carnavalesco Leandro Vieira.
Apesar do favoritismo da União de Maricá, que contava com o apoio financeiro e político de Quaquá, a Acadêmicos de Niterói surpreendeu a todos. Com o enredo “Vixe Maria”, focado em festas juninas e novamente desenvolvido pelo carnavalesco Tiago Martins, a escola sagrou-se campeã da Série Ouro em 2025, com 269,5 pontos, superando a União de Maricá, que ficou em quinto lugar. A derrota gerou fortes protestos de Quaquá, que acusou o carnaval de ser “uma vergonha” e de “roubarem à luz do dia”, direcionando críticas à prefeitura do Rio e à RioTur.
O Enredo “Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil”
O nome oficial do enredo que homenageará Lula é “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”. O mulungu, árvore típica do agreste pernambucano onde o presidente brincava na infância, serve como metáfora para a origem humilde e a ascensão do líder político. O tema, anunciado em julho, já gera grande expectativa e especulações.
A Acadêmicos de Niterói deve receber um orçamento considerável para a produção do desfile, estimado em pelo menos R$ 8 milhões em verbas públicas. Além de R$ 1 milhão do governo federal e cerca de R$ 2,6 milhões da prefeitura e do governo do Estado do Rio, a escola de Niterói terá o apoio de R$ 4,4 milhões da prefeitura de Niterói, assim como a Unidos do Viradouro, outra agremiação da cidade que desfila na elite.
A escola chegou a cogitar captar até R$ 5,1 milhões por meio da Lei Rouanet, mas desistiu devido ao curto prazo para a operação. O presidente Lula não deve desfilar, mas sua presença no sambódromo é esperada. A primeira-dama Janja confirmou sua participação, assim como a neta Bia Lula. Personalidades como o ator Antônio Pitanga e a atriz Juliana Baroni, que interpretou Marisa Letícia em “Lula, o Filho do Brasil”, também estarão presentes.
O Samba-Enredo Lulista e a História de Homenagens Presidenciais
O samba-enredo foi composto por um time de nove músicos, incluindo nomes como Arlindinho, Teresa Cristina e André Diniz. Um dos refrões promete ecoar o jingle de campanha de 1989 e um verso de Chico Buarque: “Olê, olê, olê, olá, Vai passar nessa avenida mais um samba popular, Olê, olê, olê, olá, Lula, Lula!”. Este trecho, no entanto, não foi incluído no clipe oficial divulgado pela TV Globo.
Esta será a primeira homenagem explícita a um presidente em exercício na história dos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro. Ao longo das décadas, houve homenagens disfarçadas a governantes, especialmente durante períodos de regimes autoritários. Durante o Estado Novo, Getúlio Vargas viu suas iniciativas exaltadas em enredos, como em 1944 com a Portela e “Símbolos Patrióticos”.
Após Vargas, a exaltação continuou, como em 1956 com a Mangueira e “O Grande Presidente”. Na ditadura militar, a Beija-Flor de Nilópolis apresentou em 1975 o enredo “O Grande Decênio”, celebrando os dez anos do regime. A partir de 1985, com a redemocratização, as críticas ganharam espaço, com exemplos como a Caprichosos de Pilares em 1985 e a Imperatriz Leopoldinense em 1988, ambas abordando questões sociais e políticas.
Mais recentemente, em 2018, a Paraíso do Tuiuti fez uma alusão ao então presidente Michel Temer com um carro alegórico representando um vampiro com a faixa presidencial, demonstrando que a relação entre carnaval e política sempre esteve presente, seja de forma elogiosa ou crítica.