Ligga Telecom sob Fogo Cruzado: PF Apura Ligações de Tanure com Banco Master e Investimentos de Risco
A Ligga Telecom, gigante da fibra óptica no Paraná, está no centro de uma investigação da Polícia Federal que apura a possível ligação de seu controlador, o empresário Nelson Tanure, com o Banco Master. O caso envolve a alocação de cerca de R$ 350 milhões em aplicações financeiras sem liquidez diária, levantando suspeitas sobre a saúde financeira da instituição e a transparência das operações da empresa.
Documentos internos da Ligga indicam que parte expressiva desse capital foi direcionada para Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) do Banco Master, que foi liquidado pelo Banco Central em novembro passado. Essa movimentação gerou preocupações e levou a agência de classificação de risco Moody’s a rebaixar o rating da companhia, citando a “opacidade de informação” nos demonstrativos financeiros.
A investigação da PF busca determinar se estruturas de fundos geridos ou influenciados por Tanure foram utilizadas para capitalizar o Banco Master ou para absorver créditos de difícil recuperação, ocultando a real situação financeira do banco. O empresário já foi alvo da segunda fase da Operação Compliance Zero, que investiga fraudes contábeis e financeiras envolvendo a instituição.
A Alocação de Recursos e o Rebaixamento do Rating
Conforme o último demonstrativo financeiro da Ligga, consolidado em setembro do ano passado, a empresa possuía R$ 388,6 milhões sob a rubrica “aplicações financeiras”. Deste montante, uma parcela significativa, cerca de R$ 350 milhões, foi alocada em aplicações sem liquidez diária. Essa falta de disponibilidade imediata dos recursos foi um dos principais fatores que levaram a Moody’s a rebaixar o rating da Ligga de BBB.br para BB-.br, com perspectiva negativa.
A agência de risco apontou “baixo grau de visibilidade sobre a liquidez dessas aplicações”, concluindo que o perfil de liquidez da companhia está “sob intensa pressão” e com “risco elevado de refinanciamento”. A perspectiva negativa reflete “as incertezas relacionadas à flexibilidade financeira da companhia, considerando o perfil de liquidez enfraquecido”.
Investigação da PF e a Hipótese de “Sócio Oculto”
A Polícia Federal investiga a possibilidade de Nelson Tanure atuar como um “sócio oculto” do Banco Master, exercendo influência por meio de fundos e estruturas societárias complexas. Tanure foi abordado pela PF no Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, em 14 de março, e teve seu celular apreendido. A corporação busca entender o fluxo financeiro e a possível participação do empresário em esquemas que teriam prejudicado a saúde do banco.
A Ligga Telecom, por sua vez, esclareceu em nota que “cumpre integralmente suas obrigações regulatórias” e que “não possui, atualmente, qualquer aplicação financeira no Banco Master, direta ou indiretamente”. A empresa também afirmou que seus processos decisórios seguem rigorosamente as práticas de mercado e diretrizes de governança.
Mudança no Perfil Financeiro da Ligga
Uma análise dos demonstrativos financeiros da Ligga revela uma mudança significativa em seu perfil financeiro entre 2021 e 2022. No primeiro ano sob o controle de Tanure, a empresa mantinha a maior parte de seus recursos em “caixa e equivalentes de caixa”, com liquidez diária. Já em dezembro de 2022, o caixa havia diminuído drasticamente, enquanto as aplicações financeiras sem liquidez diária saltaram para cerca de R$ 353 milhões.
Documentos citam que, em outubro de 2022, a companhia alterou sua aplicação financeira para um fundo de investimento com rentabilidade superior, mas sem liquidez diária. Essa reclassificação para a rubrica “Aplicações Financeiras” levantou bandeiras vermelhas para agências de rating e para a PF.
Rumores de Venda e Alienação de Espectro 5G
Em meio às investigações e ao rebaixamento de rating, rumores sobre a possível venda da Ligga começaram a circular. A operadora Brasil Tecpar, do empresário Gustavo Stock, confirmou manter “tratativas preliminares, de caráter exploratório e não vinculante” com a Ligga. Paralelamente, a Ligga anunciou a venda de sua autorização de uso do espectro 5G no Paraná para a Unifique Telecomunicações por R$ 20 milhões, alegando que a alienação do ativo está alinhada à sua estratégia de alocação de capital.
A defesa de Nelson Tanure afirmou que o empresário “jamais enfrentou qualquer processo criminal” e nega qualquer relação societária com o Banco Master, declarando ser apenas cliente. Tanure expressou confiança na seriedade das investigações e na comprovação da licitude de suas relações com o extinto banco.