Pragmatismo em Crise: Mark Carney Aponta Caminho para o Canadá Diante do Fim da Ordem Internacional Baseada em Regras

Pragmatismo em Crise: Mark Carney Aponta Caminho para o Canadá Diante do Fim da Ordem Internacional Baseada em Regras

Resumo

Mark Carney defende pragmatismo e ‘realismo baseado em valores’ diante do colapso da ordem internacional

A ordem internacional, antes vista como estável e baseada em regras, parece estar em xeque. Ações de potências como Estados Unidos e Rússia têm levado muitos a questionar a sustentabilidade do multilateralismo, sugerindo um retorno à lei do mais forte. Em meio a esse cenário de incerteza, o discurso do ex-governador do Banco da Inglaterra e do Banco do Canadá, Mark Carney, no Fórum de Davos, ganhou destaque.

Carney apresentou uma visão pragmática, reconhecendo a realidade de uma nova era de rivalidade entre grandes potências, sem, contudo, renunciar aos valores democráticos. Ele argumenta que não estamos em um período de transição, mas de ruptura, exigindo novas abordagens.

Suas palavras, que evocam pensadores como Tucídides e Václav Havel, sugerem a necessidade de aceitar os fatos como são, sem se iludir com a possibilidade de um retorno ao passado. A análise de Carney, conforme divulgado pela Aceprensa, aponta para um caminho de adaptação e cooperação estratégica, mesmo em um mundo menos previsível.

A Lição de Tucídides e Havel: Adaptar-se sem “Viver na Mentira”

Carney faz uma alusão direta à famosa frase de Tucídides, “os fortes agem conforme sua vontade e os fracos sofrem as consequências”, remetendo ao episódio da ilha de Melos. Ele observa que muitos países tendem a se conformar com essa realidade para garantir sua segurança, evitando conflitos.

No entanto, o líder canadense não endossa essa postura. Ele utiliza a metáfora do quitandeiro de Václav Havel, que pendura um cartaz comunista por conformismo, para ilustrar o “viver na mentira”. Carney defende que é hora de “retirar os cartazes”, ou seja, abandonar a inércia e o disfarce diante da nova ordem mundial.

O “Realismo Baseado em Valores”: Cooperação em um Mundo Fragmentado

O Canadá, segundo Carney, prosperou em uma ordem internacional baseada em normas, mas reconhece as falhas e hipocrisias desse sistema. Ele aponta que as normas eram frequentemente ignoradas pelos mais poderosos e aplicadas de forma assimétrica.

Diante disso, Carney propõe um “realismo baseado em valores”. Essa abordagem implica aceitar a nova dinâmica geopolítica, mas sem abrir mão da cooperação. Ele adverte que um mundo fragmentado, com barreiras comerciais e financeiras, será mais pobre, frágil e menos sustentável.

Para potências médias como o Canadá, a adaptação é crucial. A escolha, segundo o líder, não é construir muros mais altos, mas demonstrar ambição em construir coalizões eficazes. Isso significa formar parcerias estratégicas com países que compartilham interesses comuns, mesmo que não todos compartilhem os mesmos valores.

Novas Alianças e o Desafio do Conselho da Paz

A estratégia de Carney inclui uma diplomacia ativa, com o estabelecimento de parcerias com países como China, Catar, Índia e nações do Mercosul. Ele enfatiza que a antiga ordem internacional não voltará, sendo fundamental criar alianças flexíveis e contextuais.

Em paralelo, surge a proposta do Conselho da Paz (CP), apresentada como uma alternativa à ONU, com forte influência americana. Críticos apontam para um modelo de gestão centralizado e com exigências financeiras elevadas, mais parecido com uma empresa do que com uma organização multilateral clássica.

A criação do CP levanta questionamentos sobre a própria natureza do direito internacional e a governança global. A iniciativa, que parece priorizar a vontade de um líder sobre as normas estabelecidas, contrasta com a necessidade de instituições fortes e inclusivas para a manutenção da paz e estabilidade mundial.

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