Indígenas ocupam terminal da Cargill em Santarém contra desestatização de hidrovias na Amazônia
Na madrugada de sábado (21), um grupo de indígenas invadiu o terminal da Cargill no porto de Santarém, no Pará. O protesto é uma resposta direta a um decreto federal que autoriza a desestatização de hidrovias na Amazônia, gerando profundos temores sobre impactos ambientais irreversíveis nos rios da região.
Os manifestantes, representados pelo Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns (Cita), declararam que a ocupação só será encerrada mediante um compromisso concreto do governo para revogar o decreto. Embora tenham liberado algumas vias para o fluxo de mercadorias como um gesto de boa vontade, eles exigem coerência do presidente Lula em relação aos seus discursos sobre a preservação da Amazônia.
A ação levanta debates sobre o equilíbrio entre o desenvolvimento econômico e a proteção ambiental e cultural na região amazônica. Conforme informações divulgadas, a situação segue tensa, com decisões judiciais buscando mediar o conflito. A Cargill, por sua vez, classificou as invasões como atos violentos e declarou não ter ingerência nas decisões políticas.
Motivação do protesto: Risco à fauna e ecossistemas fluviais
A principal motivação dos grupos indígenas para o protesto é a oposição ao Decreto 12.600, emitido pelo governo federal. Eles expressam forte contrariedade à inclusão dos rios Madeira, Tocantins e Tapajós no plano de desestatização. Segundo os manifestantes, as obras necessárias para facilitar o transporte de grãos, como dragagens e o uso de explosivos para remoção de rochas, podem destruir a fauna local e comprometer seriamente o ecossistema dos rios, que são considerados vitais para sua sobrevivência.
Posição da Cargill e resposta do governo federal
A multinacional Cargill classificou as invasões em seu terminal no Pará e o vandalismo em sua sede em São Paulo como atos violentos. A empresa ressalta que não possui qualquer controle sobre as pautas políticas em questão, pois as decisões referentes ao decreto e às obras são de competência exclusiva do Poder Público. Durante a ocupação em Santarém, funcionários precisaram se abrigar em local seguro até serem removidos com auxílio das autoridades competentes.
Em contrapartida, o Executivo federal argumenta que as dragagens são ações de rotina, essenciais para manter a navegabilidade dos rios durante os períodos de seca. O governo afirma que essas operações não estão diretamente ligadas aos estudos de concessão previstos no novo decreto. Como tentativa de diálogo, o governo suspendeu a contratação de uma empresa que realizaria serviços no rio Tapajós e instituiu um grupo de trabalho interministerial para discutir o tema com a sociedade civil.
Decisões judiciais e o impasse no porto
A Justiça Federal já havia determinado a desocupação do terminal em ocasiões anteriores, mas a situação permanece em um estado de tensão. Recentemente, um juiz negou o pedido da empresa para a remoção dos manifestantes com o uso de força policial. A decisão judicial considerou que uma ação violenta, sem um plano operacional estruturado e sem diálogo prévio, poderia agravar o conflito e colocar vidas em risco, buscando uma solução menos conflituosa para o impasse.