Crise no STF: Caso Master intensifica desconfiança e desgasta relação entre ministros, gerando receio de dossiês
O Supremo Tribunal Federal (STF) vive um momento de intensa turbulência. A crise se intensificou nos últimos três meses com o desdobramento do caso do Banco Master, que trouxe à tona um ambiente de antagonismo e desconfiança entre os ministros. A reputação da Corte foi abalada, especialmente após a revelação de ligações suspeitas entre os ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes com o banqueiro Daniel Vorcaro.
As tentativas de blindar os envolvidos em investigações e as reações de outros magistrados aumentaram o clima de tensão. Decisões consideradas heterodoxas por parte de Toffoli, visando controlar investigações, e de Moraes, em resposta a vazamentos, geraram incômodo e críticas veladas entre os colegas. O diálogo interno ficou estremecido, com disseminação de informações “em off” para a imprensa.
Essa atmosfera de desconfiança foi evidenciada em episódios recentes, como a reunião secreta que decidiu afastar Toffoli da relatoria do inquérito do Master. No dia seguinte, a reportagem do site Poder360 reproduziu as falas dos ministros, levantando suspeitas de que Toffoli teria vazado seletivamente trechos da conversa para se favorecer. Conforme divulgado pela Folha de S.Paulo, ele negou enfaticamente as insinuações.
Vazamentos e Suspeitas de Dossiês Agitam o Supremo
O afastamento de Toffoli da relatoria do caso Master ocorreu após o vazamento de conversas do celular de Daniel Vorcaro, que mencionavam pagamentos de R$ 35 milhões para uma empresa ligada à família do ministro, referente à venda de um resort de luxo. O escândalo expôs as fragilidades na relação entre os membros da Corte.
Outro ponto de tensão surgiu com a operação de busca e apreensão determinada por Alexandre de Moraes contra servidores da Receita Federal. A ação visava apurar o vazamento de dados fiscais sigilosos de cerca de 100 pessoas, incluindo ministros e seus parentes. Colegas de Moraes reclamaram de não terem sido previamente avisados sobre a operação, o que intensificou as desconfianças.
Em declarações anônimas ao jornal O Globo, um ministro questionou as motivações de Moraes, levantando a hipótese de que ele poderia estar buscando montar dossiês contra outros magistrados com os dados fiscais requisitados. Essa suspeita ganha força diante de uma investigação sigilosa aberta por Moraes em janeiro, no inquérito das fake news, para apurar o vazamento de dados fiscais sigilosos.
Investigações e o Perigo de dossiês no STF
A investigação de Moraes sobre o suposto vazamento de dados fiscais levou a Receita a auditar seus sistemas. A desconfiança de alguns ministros é que, ao rastrear acessos indevidos, Moraes possa ter tido acesso a informações sigilosas, que poderiam ser usadas contra colegas. Um ministro próximo a Moraes, segundo o site Metrópoles, afirmou que ele estaria determinado a descobrir os responsáveis pelo vazamento de dados de sua esposa, mirando banqueiros, membros do governo e até jornalistas.
Paralelamente, a proposta do presidente do STF, Edson Fachin, de aprovar um código de ética interno tem enfrentado resistência. Um grupo de ministros estaria articulando ataques à proposta, chegando a criar um apelido pejorativo para Fachin, “Frachin”. A colunista de um portal de notícias, conhecida por divulgar recados de ministros, comentou sobre a atuação de uma das filhas advogadas de Fachin no STJ, levantando suspeitas sobre possíveis conflitos de interesse.
Histórico de Tensões e a Nova Configuração das Brigas Internas
Intrigas e desavenças entre ministros do STF não são novidade, tendo sido mais frequentes antes de 2019. Casos como o mensalão e a Lava Jato evidenciaram grupos rivais e discussões acaloradas em plenário. Um exemplo marcante foi o embate entre Luís Roberto Barroso e Gilmar Mendes em 2018.
Durante o governo Bolsonaro, os ministros se uniram em oposição a ameaças percebidas à Corte. Essa união se manteve forte após os ataques de 8 de janeiro de 2023, mas com o fim do julgamento do ex-presidente e a eclosão do caso Master, as desavenças ressurgiram com força.
Diferentemente de antes, quando as divergências eram majoritariamente jurídicas e políticas, as atuais intrigas parecem estar ligadas a indícios de envolvimento de ministros em escândalos e ao risco de novos vazamentos exporem relações suspeitas com Daniel Vorcaro. Essa crise de credibilidade da Corte é refletida em pesquisas recentes, como a da Quaest, que aponta que 82% dos brasileiros concordam com a necessidade de um código de ética para os ministros.