Peru enfrenta eleição presidencial em meio a profunda instabilidade política e desconfiança do eleitorado
Neste domingo (12), o Peru realiza o primeiro turno de sua eleição presidencial. O país, que já teve oito presidentes em dez anos, busca um líder capaz de completar um mandato de cinco anos, uma façanha não alcançada desde 2016. A disputa se encaminha para um segundo turno em 7 de junho, com dois candidatos de direita liderando as pesquisas: Keiko Fujimori e Rafael López Aliaga.
A atual crise política peruana se reflete no alto índice de intenções de voto em branco, evidenciando o desânimo do eleitorado. A busca por estabilidade é o principal desafio para o futuro presidente, que herdará um país marcado por escândalos de corrupção e uma sucessão de governos breves.
Desde que Ollanta Humala encerrou seu mandato em julho de 2016, nenhum presidente peruano conseguiu permanecer no cargo por cinco anos. A instabilidade se intensificou com renúncias, impeachments e destituições, em um ciclo que abalou a confiança na classe política. Conforme informações divulgadas pelo conteúdo fonte, a busca por estabilidade no Peru é um desafio histórico.
A dança das cadeiras na presidência peruana
A presidência peruana tem sido marcada por uma rotatividade impressionante. Desde 2016, o país viu Pedro Pablo Kuczynski renunciar em 2018 devido a denúncias da Odebrecht. Seu sucessor, Martín Vizcarra, sofreu impeachment em novembro de 2020, também por acusações de corrupção. Manuel Merino assumiu por apenas cinco dias, seguido por Francisco Sagasti até julho de 2021.
Pedro Castillo, eleito em 2021, foi destituído e preso em dezembro de 2022 após tentar um autogolpe. Sua vice, Dina Boluarte, assumiu, mas também foi destituída em outubro de 2025 por “incapacidade moral permanente”. José Jerí, presidente do Congresso, durou menos que sua antecessora, sendo removido em fevereiro após acusações de tráfico de influência. Atualmente, José María Balcázar preside o Peru.
Ex-presidentes enfrentam a Justiça em um cenário de condenações
A instabilidade política no Peru é acompanhada por sérios problemas judiciais para seus ex-líderes. Recentemente, quatro ex-presidentes foram condenados à prisão em pouco mais de um ano. Pedro Castillo recebeu pena de 11 anos e cinco meses por tentativa de autogolpe.
Martín Vizcarra foi condenado a 14 anos por corrupção. Alejandro Toledo, que governou de 2001 a 2006, foi condenado a 13 anos e quatro meses por lavagem de dinheiro no caso Ecoteva, e anteriormente a 20 anos e seis meses em outro caso envolvendo a Odebrecht. Ollanta Humala e sua esposa, Nadine Heredia, foram condenados a 15 anos por lavagem de dinheiro, com financiamento ilegal para campanhas eleitorais.
Fatores estruturais alimentam a crise política no Peru
Frederico Dias, professor de relações internacionais do Ibmec Brasília, aponta a corrupção “sistêmica” como um dos principais motores da instabilidade no Peru. Ele destaca que todos os ex-presidentes vivos do século XXI enfrentam investigações, processos ou condenações.
Outro fator crucial é o desenho constitucional, especialmente a cláusula de “incapacidade moral permanente”. Dias explica que este dispositivo vago permite ao Congresso destituir presidentes com maioria qualificada, sem a necessidade de um crime claramente tipificado, sendo usado como arma política. A fragmentação extrema do sistema partidário, com partidos fracos e sem alcance nacional, também contribui para a paralisia decisória e crises recorrentes.
Voto em branco como sintoma de desconfiança
A expressiva parcela do eleitorado que manifesta intenção de votar em branco é vista por especialistas como um reflexo da **desconfiança estrutural no sistema político peruano**. Esse cenário é típico de democracias em crise prolongada e tende a agravar a instabilidade, pois presidentes eleitos com baixa votação efetiva chegam ao poder com legitimidade frágil, facilitando novas tentativas de destituição e reforçando o ciclo de crises.