Guiana oferece terras gratuitas a produtores brasileiros impulsionada pelo petróleo para diversificar economia e se tornar hub agrícola do Caribe.
A Guiana, país sul-americano que vive um boom econômico graças à descoberta de vastas reservas de petróleo em alto-mar, está voltando seus olhos para a agricultura como um setor estratégico para o futuro. O governo guianense busca ativamente a parceria de produtores brasileiros, oferecendo um atrativo diferencial: terras de graça para cultivo, com a única exigência de que sejam devidamente cultivadas.
A iniciativa visa transformar a Guiana em um polo agrícola na região, capaz de abastecer não só o mercado interno, mas também a Comunidade do Caribe (Caricom). Apesar do potencial, a adesão de produtores brasileiros ainda é tímida, enfrentando desafios como a barreira do idioma e a necessidade de maior estruturação logística e de mercado.
As informações foram divulgadas em matérias jornalísticas que acompanharam visitas de produtores e representantes brasileiros ao país, destacando o interesse mútuo em desenvolver o agronegócio guianense com a expertise brasileira. O país busca reduzir suas importações de alimentos em 25% até 2030.
Oportunidade de ouro em terras férteis com isenção de impostos
A oferta guianense inclui a concessão de terras por períodos de até 99 anos, com possibilidade de renovação e sem custo inicial. Para o governo, o requisito é a produção efetiva. Produtores interessados precisam apresentar projetos e arcar com os investimentos em operações, máquinas, sementes e insumos. A Guiana não cobra impostos sobre maquinários agrícolas nem sobre a produção rural, buscando atrair quem tem capital para investir.
Um dos pioneiros, o paranaense Emílio Araújo, deixou o Brasil devido a entraves ambientais e encontrou na Guiana um ambiente propício. Em apenas três safras, expandiu sua operação de 500 para 4.000 hectares, em sociedade com um produtor local. “Isso aqui é outro mundo, é oportunidade única”, relata Araújo, destacando a facilidade de trabalho e a ausência de “tantos empecilhos em questões ambientais” comparado ao Brasil.
Desafios persistem apesar da boa vontade governamental
Apesar das generosas ofertas, alguns obstáculos ainda freiam o ímpeto dos produtores brasileiros. A barreira do idioma, já que a Guiana é o único país sul-americano de língua inglesa, é um deles. A falta de um mapa georreferenciado das terras agricultáveis, dados pluviométricos detalhados e uma formatação ainda incipiente do modelo de parceria proposto pelo governo também são pontos de atenção.
A infraestrutura logística também está em desenvolvimento. A rodovia que ligará Lethem, na fronteira com o Brasil, ao porto de Georgetown, com 680 km, avança, mas ainda faltam 400 km de asfalto, obra estimada em três a quatro anos. Essa rodovia é vista como crucial para o escoamento da produção.
Investimento em commodities e pecuária halal impulsionam a demanda
O Ministro da Agricultura da Guiana, Zulfikar Mustapha, expressou claro interesse na experiência brasileira com commodities como milho e soja, essenciais para a expansão da produção de frango, proteína mais consumida no Caribe. “Vocês, brasileiros, têm produzido commodities como milho e soja em larga escala e por muitos anos. Vocês têm a experiência”, afirmou o ministro.
Há também um forte interesse em desenvolver a pecuária industrial voltada ao abate halal, mercado promissor devido à proximidade cultural e religiosa com países onde o islamismo é predominante. O governo também sinaliza oportunidades em aquicultura, produção de água de coco, frutas e hortaliças.
Ausência de indústrias de processamento e o futuro do agronegócio guianense
Um dos principais gargalos apontados por produtores e empresários é a ausência de grandes tradings agrícolas ou esmagadoras de soja no país. Isso levanta a questão sobre para quem vender a produção, especialmente o farelo, essencial para a indústria de ração animal. A preocupação é se vale a pena plantar sem ter para quem vender o produto processado.
O economista e conselheiro do governo guianense, Richard Blair, acredita que a chegada de investimentos maciços impulsionará o surgimento dessas indústrias. “À medida que os investimentos maciços ocorrerem, haverá impulso para essas oportunidades, e elas certamente virão”, assegurou Blair.
Produtores como Alair Gonçalves enxergam a construção de uma esmagadora como um ponto de virada. “Se fizer a esmagadora, daí vai todo mundo. Onde vai um ou dois produtores, vão logo três e vai todo mundo”, pontua. A expectativa é que, com o avanço da produção, a demanda por essas indústrias se torne clara, atraindo novos investimentos.
A visão de futuro: Guiana como corredor logístico e alimentador do Caribe
Apesar das incertezas, produtores como Emílio Araújo mantêm o otimismo. Sua fazenda às margens do Rio Berbice já serve como um corredor logístico para insumos e escoamento de produção, embora o assoreamento limite a navegação. “Acredito que a Guiana nos próximos anos será um corredor logístico e também irá alimentar todo esse Caribe”, projeta Araújo.
A visita de produtores brasileiros, organizada por figuras como o ex-ministro da Agricultura Antonio Cabrera, é vista como uma expedição exploratória. “Entendo que é nessas dificuldades que aparecem realmente as grandes oportunidades”, afirma Cabrera, confiante de que, a médio prazo, as questões logísticas e aduaneiras serão resolvidas, abrindo fronteiras.
Apesar da boa vontade do governo e do potencial financeiro dos petrodólares, a falta de um projeto claro e detalhado sobre as áreas agricultáveis ainda é um ponto crítico. “Só o dinheiro (do petróleo) não resolve”, ressalta Anderson Walcz, consultor ambiental. No entanto, pecuaristas como Alair Gonçalves já se preparam para retornar com propostas concretas, vendo um futuro promissor em café, fruticultura e pecuária.