Suécia reinventa modelo de bem-estar social e colhe frutos econômicos, mas debate volta a flexibilizar gastos fiscais.
A Suécia, outrora sinônimo de um Estado de bem-estar social abrangente, passou por uma transformação radical após a crise econômica do início dos anos 1990. O país reduziu significativamente o peso do Estado na economia, com gastos públicos caindo de cerca de 72% para aproximadamente 50% do PIB ao longo de três décadas.
Essa reconfiguração incluiu reformas na previdência social, abertura de setores como educação para a iniciativa privada e a implementação de um rigoroso arcabouço fiscal. O resultado foi uma economia que voltou a crescer, com a dívida pública alcançando um dos menores patamares da Europa.
No entanto, o cenário atual na Suécia aponta para uma possível mudança de rumos, com discussões sobre a flexibilização de regras fiscais para investimentos em áreas consideradas críticas. Conforme informações divulgadas pela OCDE e pela Comissão Europeia, a Suécia tem apresentado um crescimento econômico robusto e controle da dívida pública, mas o debate político em torno do futuro do modelo de bem-estar social ganha força.
Do “Lar do Povo” à Crise Econômica
Na década de 1930, a Suécia lançou o conceito de “folkhemmet”, ou “lar do povo”, com o objetivo de garantir proteção social “do berço ao túmulo”. Este modelo expandiu-se nas décadas de 1970 e 1980, oferecendo saúde universal, educação gratuita, seguro-desemprego generoso, aposentadorias amplas e outros benefícios.
A expansão dos serviços públicos levou a um aumento expressivo do Estado e a uma das cargas tributárias mais altas do mundo. A tributação sobre trabalhadores de alta renda chegou a se aproximar de 90% no início dos anos 1980. O modelo, contudo, começou a mostrar sinais de esgotamento na década de 1970, com perda de competitividade das exportações e aumento da inflação e déficits orçamentários.
A Virada e as Reformas Pró-Mercado
A crise se aprofundou nos anos 1980 e explodiu no início dos anos 1990, com queda do PIB, falências bancárias e desemprego disparando de 2% para 11%. O gasto público atingiu um pico histórico de mais de 70% do PIB. Diante deste cenário, governos de centro-direita e centro-esquerda concordaram na necessidade de reformas.
Foram implementadas medidas como cortes no seguro-desemprego e subsídios habitacionais, privatização de serviços públicos, abertura da saúde e educação para o setor privado, reduções de impostos e reforma previdenciária. A alíquota máxima de imposto de renda caiu para cerca de 50%. Essas reformas buscaram tornar o Estado mais enxuto e a economia mais dinâmica.
Menos Estado, Mais Crescimento e Novas Discussões
Atualmente, o gasto público total na Suécia é de cerca de 50% do PIB, e o gasto social representa menos de 24% do PIB. Setores como saúde e educação viram a participação privada aumentar significativamente, com a expectativa de melhoria na qualidade dos serviços e ampliação da competição. Segundo a ministra das Finanças, Elisabeth Svantesson, as reformas transformaram a Suécia em uma “terra de oportunidades”.
As projeções da OCDE indicam um crescimento real do PIB sueco superior a países como Alemanha e França. A dívida pública sueca está controlada em torno de 35% do PIB, um dos menores índices na Europa. O economista Stefan Fölster aponta que a renda real das famílias dobrou desde os anos 1990.
Ajustes Fiscais e o Futuro Político
Em outubro de 2024, seis dos oito partidos do parlamento sueco acordaram em substituir a regra de superávit fiscal por um “orçamento equilibrado”, permitindo que o governo gaste o que arrecada. A justificativa é a necessidade de investimentos em infraestrutura, transição energética, segurança pública e aumento dos gastos militares para cumprir as metas da OTAN.
Esta mudança ocorre em um ano eleitoral, com as pesquisas indicando uma possível volta da centro-esquerda ao poder. O Partido Social-Democrata defende, por exemplo, a proibição do lucro em escolas privadas financiadas com recursos públicos e maiores investimentos em serviços públicos.