O cronista que se autoanalisa: a jornada pela fé em meio ao caos político e existencial
Em um cenário onde dossiês políticos se tornaram frequentes, um cronista optou por um caminho inusitado: o autodossiê. Ele se propõe a expor suas próprias convicções e a revelar o fio condutor de sua vida, que, surpreendentemente, não é a política, mas a busca incessante por Deus.
O autor confessa um profundo desejo de se desvencilhar completamente do universo político, sonhando com uma vida dedicada a temas como o perdão, a literatura e o divino. Essa aspiração se contrapõe ao desprezo que sente pelos poderes terrenos, que ele descreve como efêmeros e sem substância.
É nesse contexto de reflexão sobre a espiritualidade que o cronista revela, conforme suas próprias palavras, que todas as suas ações ao longo da vida convergem para um único propósito: a procura de Deus. Essa busca, segundo ele, esteve presente em todos os seus passos, desde os movimentos estudantis até as campanhas políticas e debates eleitorais. Essa revelação foi divulgada pelo próprio autor em seus livros.
A política como palco da busca espiritual
Desde os anos 70, em assembleias estudantis, até a escrita para boletins sindicais e a participação em campanhas políticas de esquerda nas décadas de 80 e 90, o autor afirma que o que o movia era a procura por Deus. Essa mesma busca o acompanhou após os 29 anos, quando passou a defender o conservadorismo, nas ruas, debates e corredores de Brasília.
Ele descreve sua juventude, marcada por festas e excessos na época da República, como um período em que Deus já se fazia presente, mesmo que ele não o percebesse. As ressacas e a desordem material eram o rastro de uma busca que ainda não se concretizava em conexão espiritual.
Encontros inesperados e a presença divina sutil
O cronista narra momentos cotidianos, como uma caminhada em Londrina ou um abraço em uma festa, como episódios onde, sem saber, buscava a presença divina. Ele menciona uma senhora de 90 anos que o impediu de tomar uma decisão que poderia desviar o curso de sua vida, atribuindo a intervenção a Deus.
Em suas madrugadas, em busca de substâncias ilícitas na periferia de Londrina, o autor revela que, na verdade, procurava não a droga, mas Aquele que criou o universo. Essa busca se estendia até mesmo em atividades aparentemente banais, como apertar botões de elevadores em centros comerciais.
A busca incessante pelo transcendente
Passeios urbanos com amigos, longas horas em bibliotecas públicas, tudo era, para o cronista, um palco para a busca de Deus. Ele descreve sua procura como algo que habita o impossível, uma busca por Aquele Que É, presente no cotidiano, mas muitas vezes ignorado.
Ele se compara a uma mosca parada no gelo, buscando a condensação até o silêncio, mas sempre à procura de um presságio. A fé se manifesta na insistência em encontrar o divino na termodinâmica, em uma reta sem pontos, na moral das pedras, na quietude das bocas e na treva luzidia que tudo esconde.
Renúncia e a esperança na Presença Divina
A busca se estende ao espaço curvo, à raiz quadrada de menos um, ao gozo profundo e à dor não percebida. O autor declara que Deus está além do vento e da vaidade, sendo a redundância da natureza. Diante da totalidade do universo, ele opera sua renúncia, multiplicando tudo por zero.
Em um oceano pacífico de fúrias, o cronista anula-se para que Deus apareça, pedindo em atos, palavras, omissões e pensamentos que o divino também o procure. Deixando para trás o ruído das serpentes e moscas varejeiras, ele almeja encontrar a vida sem morte, onde o Logos se manifesta não mais como busca, mas como Presença.