Campanha de Lula Aposta em “Carnificina Eleitoral” Contra Flávio Bolsonaro no Horário Gratuito
A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) decidiu mudar o tom no horário eleitoral gratuito, focando em uma estratégia agressiva de desconstrução do principal adversário, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A ofensiva, que começou nesta sexta-feira (28) e ganha força a partir de sábado (29), visa abalar a imagem do filho do ex-presidente.
A estratégia petista se baseia no que chamam de “currículo” de Flávio Bolsonaro, apresentando sua trajetória como uma espécie de “ficha corrida” policial. As primeiras peças já exploram as conversas do senador com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro e o antigo caso das “rachadinhas” na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).
O plano da campanha de Lula é virar o jogo de pressão, após semanas de questionamentos sobre as revelações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Mensagens apreendidas pela Polícia Federal reforçaram suspeitas de tráfico de influência do filho do presidente. A campanha de Lula, contudo, busca contrastar a postura de Lula, que afirma que Lulinha deve ser investigado como qualquer cidadão, com a forma como o ex-presidente teria agido para proteger Flávio Bolsonaro em investigações passadas.
A estratégia em relação a Lulinha também se vale da comparação entre Lula e Jair Bolsonaro. O ex-presidente é retratado como tendo usado seu poder, à época, para proteger Flávio nas investigações sobre a “rachadinha” na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Por outro lado, o PT tenta construir a imagem de que Lula adota uma atitude diferente diante das suspeitas envolvendo o próprio filho.
O presidente tem afirmado que Lulinha deve ser investigado como qualquer cidadão e que, se tiver cometido algum erro, terá de responder. Lula terá uma vantagem significativa de exposição para executar a estratégia. O presidente terá 5 minutos e 31 segundos em cada bloco, contra 4 minutos e 20 segundos de Flávio, além de 433 inserções ao longo do primeiro turno, contra 339 do candidato do PL. A diferença é resultado da coligação reunida pelo PT.
Ataques Direcionados e “Carnificina Eleitoral”
As peças mais agressivas da campanha petista incluem a exploração da homenagem proposta por Flávio Bolsonaro ao ex-policial Adriano da Nóbrega, suspeito de ligação com uma milícia e chamado na campanha de Lula de “matador de aluguel”. A compra de imóveis em dinheiro vivo e um antigo negócio do candidato do PL com uma franquia de chocolates também serão abordados.
Em uma das inserções mais contundentes, como revelou a Folha de S. Paulo, um locutor afirma que “não dá para confiar nesse sujeito” e chama Flávio de “o pior dos Bolsonaros”. Um jingle no ritmo de forró lista as suspeitas contra o senador. “Vai ser uma carnificina eleitoral”, prevê Alexandre Manoel, da Global Analytics, destacando o estilo do PT e sua “máquina de reeleição muito estruturada”.
TV como Campo de Batalha Decisivo
Estrategistas eleitorais, como Roberto Reis, apontam a televisão como um território de domínio do PT. “Eles são muito bons de horário eleitoral, são muito bons de TV”, afirma Reis, prevendo que a campanha baterá em Flávio “dia sim, dia também”. A estreia no horário eleitoral ocorre após um empate técnico entre Lula e Flávio nas pesquisas para o segundo turno, com a última sondagem da BTG/Nexus mostrando Lula com 46% e Flávio com 45%.
Apesar da ascensão das redes sociais, a TV continua sendo fundamental. A pesquisa BTG/Nexus indica que 65% dos brasileiros pretendem acompanhar a eleição presidencial pela TV aberta, índice que sobe para 72% entre eleitores de até dois salários mínimos, segmento onde Lula tem maior força. Estudos do Cesop/Unicamp também confirmam a TV como principal meio de informação sobre eleições, mesmo com o avanço das redes.
Estratégias Agressivas e Precedentes Históricos
A campanha petista não descarta estratégias mais ousadas, mesmo com o risco de problemas com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O PT tem um histórico de campanhas agressivas, como em 2014, quando Marina Silva foi alvo de uma campanha de desmoralização que explorou sua proposta de autonomia ao Banco Central. Uma peça mostrava a comida desaparecendo de uma mesa enquanto a proposta era explicada, criando um cenário “tendencioso”, segundo o então procurador-geral Eleitoral, Rodrigo Janot.
Na mesma eleição, a campanha de Dilma Rousseff também atacou Aécio Neves, acusando-o de perseguir jornalistas. O TSE chegou a suspender uma peça, afirmando que o horário eleitoral deveria ser “propositivo, e não para críticas destrutivas da imagem pessoal”. Em 2006, na disputa pela reeleição de Lula contra Geraldo Alckmin, o PT publicou um texto intitulado “O telhado de vidro de Alckmin”, com ataques à mulher e à filha do tucano, o que gerou pedidos de desculpas por parte da coordenação da campanha petista.
Programa de Governo e Apelo Popular
Nos programas em bloco, parte do tempo será usada para destacar os feitos de Lula sob o slogan “O Brasil pronto pra mais”. A campanha apresentará o mandato como um período de reconstrução, após o desmonte de políticas públicas da gestão anterior. Medidas como Pé-de-Meia, Gás do Povo, renovação automática da CNH, Desenrola e Move Brasil serão evidenciadas, evitando temas sensíveis como ajuste fiscal e teto de gastos.
Para Reis, a estratégia de focar em feitos positivos e atacar o adversário faz sentido. “Não tem jeito de maquiar supermercado”, diz, referindo-se à importância de lidar com os problemas econômicos que afetam o eleitor. A campanha busca elevar a rejeição a Flávio Bolsonaro durante os 35 dias de horário gratuito do primeiro turno, concentrando os ataques mais pesados em inserções curtas.