China e Rússia: O que está em jogo para Pequim e Moscou na guerra do Irã e os limites da aliança com Teerã

China e Rússia: O que está em jogo para Pequim e Moscou na guerra do Irã e os limites da aliança com Teerã

Resumo

China e Rússia condenam, mas evitam confronto direto no Oriente Médio, expondo limites de sua parceria com o Irã

Horas após os ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã no sábado (28), os regimes da Rússia e da China condenaram a ofensiva, pediram cessar-fogo imediato e defenderam a retomada do diálogo diplomático.

Apesar do posicionamento, Moscou e Pequim evitaram sinalizar algum tipo de apoio militar direto a Teerã, expondo os limites práticos da parceria que os dois países mantêm com o regime iraniano. As declarações ficaram restritas ao campo diplomático, sem tom ameaçador ou bélico.

No Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), a Rússia classificou os bombardeios dos EUA e Israel contra o Irã como “atos de agressão”, enquanto o chanceler chinês, Wang Yi, afirmou ser “inaceitável” que os EUA atacassem o Irã em meio a negociações diplomáticas. Conforme informação divulgada pelas fontes, essa postura revela a complexa teia de interesses que liga essas nações.

Interesses Estratégicos e Acordos Bilaterais sob Pressão

Tanto a China quanto a Rússia possuem acordos estratégicos firmados com o Irã nos últimos anos, ampliando a cooperação política, econômica e militar. Em janeiro deste ano, os países anunciaram um “pacto trilateral” para reforçar a coordenação diplomática e a aproximação em temas como energia, comércio e defesa.

No entanto, o acordo não estabelece nenhuma cláusula de defesa mútua nem obriga qualquer uma das partes a intervir militarmente em caso de ataque externo. Essa ausência de compromisso de defesa coletiva é um ponto crucial, diferenciando essas parcerias de alianças como a Otan.

O Papel do Irã na Guerra da Ucrânia e a Dependência Energética Chinesa

O Irã tem sido um importante apoiador de Moscou na invasão à Ucrânia, enviando centenas de drones desde 2022, que têm sido amplamente utilizados nos ataques contra cidades e infraestrutura ucranianas. Essa cooperação militar ajudou a Rússia a compensar parte das limitações impostas pelas sanções ocidentais.

No caso chinês, o vínculo é sobretudo econômico e energético. A China é hoje o maior comprador de petróleo iraniano, absorvendo mais de 80% de tudo o que o Irã exporta. Essas compras, frequentemente abaixo do preço internacional, garantem vantagem financeira a Pequim e receita vital para Teerã, que vive sob sanções do Ocidente.

Ameaças aos Corredores Comerciais e a Nova Rota da Seda

Pesa também o fato de que os países do Golfo, alvos de ataques do Irã, absorvem parte do investimento da Iniciativa Cinturão e Rota da China (Belt and Road Initiative), conhecida como a “Nova Rota da Seda”. Essa estratégia visa expandir a influência econômica e geopolítica chinesa através do financiamento de obras de infraestrutura e acordos comerciais.

Ataques contra infraestrutura iraniana também ameaçam corredores comerciais estratégicos que interessam diretamente a Moscou e Pequim, segundo análise da consultoria SpecialEurasia. Uma eventual queda do regime iraniano colocaria a China e a Rússia diante de perdas estratégicas relevantes no Oriente Médio, ainda que de naturezas distintas.

Por que China e Rússia Evitam o Confronto Direto

Apesar dos acordos e da importância estratégica do Irã, analistas avaliam que nenhum dos dois regimes tem interesse em se envolver diretamente no conflito. Ludmila Culpi, professora de Relações Internacionais da PUC-PR, acredita ser “improvável que potências globais como China e Rússia desejem arcar com os custos de um envolvimento direto contra os EUA”.

Para a China, enfrentar o poderio militar dos Estados Unidos e de Israel no Oriente Médio significaria assumir riscos em uma região que não integra suas prioridades centrais, como a questão de Taiwan. Evan Feigenbaum, do Carnegie Endowment for International Peace, ressalta que grande parte do planejamento militar chinês está direcionado ao Leste Asiático.

O Kremlin, por sua vez, ainda está concentrado na guerra na Ucrânia e tem sofrido fortes perdas. Analistas do think tank Chatham House avaliam que Moscou dificilmente abriria uma nova frente de tensão direta com os Estados Unidos enquanto concentra recursos e capacidade militar no conflito em curso no leste europeu.

Grégoire Roos, diretor dos programas para Europa, Rússia e Eurásia do Chatham House, afirma que o Kremlin não pretende se envolver diretamente nem oferecer apoio militar concreto a Teerã. Segundo ele, os “próximos passos do Kremlin provavelmente serão calibrados para preservar sua credibilidade como parceiro crítico do Ocidente, mas sem ser arrastado para um segundo conflito de alta intensidade.”

Benefícios Econômicos de Curto Prazo para a Rússia

O conflito em curso no Oriente Médio pode gerar efeitos econômicos positivos para Moscou no curto prazo. A instabilidade no Irã tende a pressionar os preços internacionais do petróleo, que é a principal fonte de receita externa da Rússia.

Uma alta sustentada da commodity no mercado internacional favorece exportadores como a Rússia, que continua altamente dependente das receitas energéticas para financiar seu orçamento militar e sustentar sua invasão à Ucrânia. “Putin deve estar radiante [com o conflito], porque qualquer coisa que eleve o preço do petróleo é positiva para ele”, afirmou a analista Ellen Wald à emissora americana CNBC.

Desde 2022, o petróleo russo está sob sanções, mas Moscou continua exportando volumes maiores para países como China, Brasil e Índia, muitas vezes com descontos. No entanto, um projeto de lei nos EUA prevê novas sanções com tarifas secundárias sobre bens importados de países que continuem comprando petróleo russo, o que poderia impactar parceiros comerciais como o Brasil.

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